Mestre Paulo Freire

Um Grande Mestre

‘Professores há muitos; mestres, dignos desse nome raros o são. O mestre é. Porque a sua vida tem um sentido, ensina a possibilidade de existir.’ (Georges Gusdorf)

Não é necessário colocarmos alguns dans na cintura, como acontece em algumas artes marciais, para sermos um Mestre ou Grão Mestre. Esta afirmação é tão verdadeira que poderíamos deduzir que não são 4, 5 ou 8 dans que nos tornam um verdadeiro Mestre, embora tratamos todos aqueles que chegaram a este estágio como tal.

O Mestre precisa acreditar no que diz. Deve ter convicção em seus ensinamentos para que seus discípulos, também acreditem e se sintam envolvidos.
O mestre é aquele que nos ensina a diferença entre existir e viver. É a condição que um ser humano assume de construir, contribuir, despertar e formar indivíduos politizados. É o compromisso que algumas pessoas têm de auxiliar outras na busca do caminho, o ‘DO’.

Paulo Reglus Neves Freire foi uma dessas pessoas. Pernanbucano de Recife, nascido em 19 de setembro de 1921, passou parte de sua infância e juventude em Jaboatão dos Guarapes, faleceu em São Paulo, no dia 2 de maio de 1997.

Sua história de vida é marcada por três períodos, caracterizados por desiguais referências de espaço e tempo. As etapas em que se divide a biografia de Paulo Freire são o Tempo de Recife, o Tempo de Exílio e o Tempo de São Paulo.

Fez de sua vida uma eterna contribuição à educação popular, principalmente a educação dos adultos. Buscou na simplicidade seu maior recuso e deu sua enorme contribuição para o Brasil e para o Mundo.


Paulo Freire, formou-se em Direito na década de 40, mas já tinha percebido que este não seria o seu ideal, optou por ser Professor, de Professor a Educador, de Educador a Pedagogo de Pedagogo a Pesquisador e de Pesquisador a Filósofo. Criou a partir de sua experiência no nordeste brasileiro as condições futuras para a Pedagogia Freireana, inclusive os princípios do ‘Método Paulo Freire de Alfabetização’.

A utilização do ‘Método Paulo Freire’ em Angicos - RN no ano de 1963 e no Programa Nacional de Alfabetização, do MEC, contribuiu para a sua prisão e seu posterior exílio, quando foi deflagrado o golpe de estado de 1964.

Partiu, então, para seu tempo de exílio em setembro de 1964. Entre novembro de 1964 a abril de 1969 viveu em Santiago do Chile. Neste período escreveu seu primeiro trabalho publicado comercialmente: Educação como prática de liberdade.

No Chile, respirou um pouco de Brasil em função da aproximação com intelectuais brasileiros igualmente exilados: Plínio Arruda Sampaio, Ernani Maria Fiori, Álvaro Vieira Pinto, Francisco Weffort, Fernando Henrique e Ruth Cardoso, Thiago de Mello, entre outros.

Saiu pela primeira vez do Chile em 1966 para realizar conferências e participar de seminários no México, Cuernavaca.

Em 1967 fez sua primeira visita aos Estados Unidos da América, a convite de seis Universidades Norte-americanas.

Voltaria aos Estados Unidos, ainda em seu tempo de exílio, para uma permanência mais longa, de abril de 1969 a fevereiro de 1970, em Harvard.
Durante 10 anos, de fevereiro de 1970 a junho de 1980, Freire encontrou em Genebra seu endereço estável, no Conselho Mundial das Igrejas. Professor na Universidade de Genebra, com liberdade para desenvolver experiências fora da Suíça, Paulo Freire partiu para o mundo (sempre retornando a Genebra). Fez-se presente com sua palavra e ação na Ásia, Oceania, América e, sobretudo, na África de língua portuguesa (Cabo Verde, Angola, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau). A partir de Genebra, Paulo Freire projetou-se na história da educação no século XX como um cidadão do mundo.
Paulo Freire tinha 43 anos de idade quando partiu para o exílio. Retornou quase 16 anos após. Em junho de 1979 obtivera seu primeiro passaporte brasileiro. Passou o mês de agosto no Brasil. Mas, somente no ano seguinte voltaria para ficar. Chegava com o desejo de ‘reaprender o Brasil’.
Apesar do muito que ensinou ao mundo, que aprendeu do mundo, jamais perdeu os vínculos afetivos e culturais com o Brasil, o nordeste brasileiro, o Recife. ‘Antes de ser cidadão do mundo’, repetiu várias vezes, ‘sou um cidadão do Brasil.’ Jamais perdeu sua recifensidade.

De volta ao Brasil, deu uma serie de contribuição intelectual. Foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, Professor na UNICAMP, Secretário de Educação na Prefeitura de São Paulo, no Governo de Luiza Erundina, além de um enorme acervo escrito entre livros, artigos, seminários.

Entre suas obras destaca-se a Educação como prática da liberdade (1967), Pedagogia do oprimido (1970), Paulo Freire: Pedagogia da esperança (1992), Cartas a Cristina (1994), À sombra desta mangueira (1995), e Pedagogia da autonomia (1997). E deixaria, simbolicamente, inconclusos, cartas e textos que seriam reunidos por Ana Maria Araújo Freire em um livro emblemático: Pedagogia da Indignação (2000).

No dia 12 de abril de 1991, testemunha Moacir Gadotti (2001, p. 17), ‘Paulo Freire, numa reunião com educadores e amigos, lançou a idéia da criação do Instituto Paulo Freire’.

Em fevereiro de 1997, Paulo Freire visitou Recife pela última vez. Proferiu, então, uma palestra (Freire, P. 1997-b), a última entre nós, quando rememorou os dez anos em que trabalhou no SESI. Mais uma vez, repetiu: ‘mudar é difícil, mas é possível.’ Pode-se dizer que esta afirmação é um exemplo de que podemos nos manter jovens, mesmo no final de nossas vidas.

Escreve Ana Maria Araújo Freire, na Pedagogia da indignação (Freire, P., 2000, p. 67-68) que, apesar de cansado, ainda em abril de1997, Paulo se encontrava intelectual e emocionalmente envolvido com o seu trabalho, com a educação. Lembra que, no dia 20, recebeu a visita de Germano Coelho e de sua filha, Verônica, e para eles leu as cartas pedagógicas que estava escrevendo. Germano e Verônica ‘foram as últimas pessoas que tiveram o privilégio de saber detalhes e de ouvir da própria voz do autor, trechos desse livro inacabado’ (Pedagogia da indignação).
A última aula proferida pelo Ms. Paulo Freire foi em abril de 1997, na PUC de São Paulo.

Nas palavras de Ana Maria, naquele último encontro com Paulo Freire, Germano Coelho e Verônica ‘testemunharam a energia emanada de sua indignação e de seu amor; a vontade de trabalhar e de participar, criticamente, da vida de seu país; e o gosto de viver que Paulo levou consigo na madrugada de 2 de maio de 1997.’

Não tenho conhecimento se Paulo Freire treinou alguma Arte Marcial na sua juventude, mas nem por isto deixou de nos dar uma contribuição significativa pelo conjunto de sua obra e seu compromisso com a formação de um Ser Humano melhor. Podemos considerá-lo um Grande Mestre. Paulo Freire morreu de infarto aos 75 anos de idade e deixou para todos nós, um conjunto filosófico de conceitos e reflexões, que pode nortear nossa missão como instrutores, professores, mestres e educadores

José Afonso – F. Preta 2º Dan - CBTKD Mossoró – RN

Fonte de Pesquisa: www.paulofreire.org.br

PALAVRAS DO MESTRE PAULO FREIRE.

‘Eu agora diria a nós, como educadores e educadoras: ai daqueles e daquelas, entre nós, que pararem com sua capacidade de sonhar, de inventar a sua coragem de denunciar e de anunciar. Ai daqueles e daquelas que, em lugar de visitar de vez em quando o amanhã, o futuro, pelo profundo engajamento com o hoje, com o aqui e com o agora, ai daqueles que, em lugar desta viagem constante ao amanhã, se atrelarem a um passado de exploração e rotina.’

‘Aprender para nós é construir, reconstruir, constatar para mudar, o que não se faz sem abertura ao risco e à aventura do espírito’.

‘Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as pessoas e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade.’

‘Ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, os homens educam-se mediatizados pelo mundo.’

‘Eu gostaria de ser lembrado como alguém que amou o mundo, as pessoas, os bichos, as árvores, a terra, a água, a vida.’

Sobre sua ida para ao exílio, escreveu:

‘Cheguei ao Chile de corpo inteiro. Paixão, saudade, tristeza, esperança, desejo, sonhos rasgados, mas não desfeitos, ofensas, saberes acumulados, nas tramas inúmeras vividas, disponibilidade à vida, temores, receios, dúvidas, vontade de viver e de amar. Esperança, sobretudo.’
Pedagogia da esperança (p. 35)

Só a morte o impediu de repetir de viva voz:

‘Se, de um lado a educação não é a alavanca das transformações sociais, de outro, estas não se fazem sem ela’.

Repetiu várias vezes:

‘Mudar é difícil, mas é possível.’

Por: Prof. José Afonso Nunes