Ditadura, esporte e retrocesso

 

Especial para o Wall Street International
27 de abril de 2015

Por Marcelo Gomes

 

Ditadura, esporte e retrocesso
Rio 2016, um país em busca de identidade

 


O Brasil vive um momento de perplexidade e indecisão, em busca de uma identidade esportiva. Quem viveu as barbáries dos anos de chumbo, com o golpe militar de 1964, apoiado por empresários brasileiros e sob as bênçãos de líderes de países capitalistas, sabe muito bem o tamanho do trauma provocado na recente história do país.

Uma ditadura que calou o povo brasileiro por 30 anos. Que manchou a história da política nacional. Um período em que famílias inteiras foram dizimadas, destruídas pela opressão em forma de tortura - física e psicológica. Isso sem falar em mortes de jovens ocasionadas por um tenebroso e impiedoso regime ditatorial. Estudantes que sonhavam com um país mais justo, livre, com oportunidades para todos. Mas o idealismo virou utopia e um banho de sangue.

O que o esporte tem a ver com isso?

Muitos estudantes praticavam esporte. Desde o boxe, passando por atletismo, remo, basquete, vôlei e futebol. Alguns foram mortos e os corpos nunca mais encontrados, como o do boxeador e geólogo Osvaldão. Ele teve a cabeça decapitada por soldados das Forças Armadas durante a Guerrilha do Araguaia, nos anos 70. Hoje presidente do Brasil, a ex-nadadora Dilma Rousseff, também foi torturada por ‘ser uma comunista subversiva’.

A tortura física daqueles tempos de ditadura acabou, mas a psicológica continua. Uma herança maldita e deplorável enraizada no esporte.

Hoje, os coronéis não vestem fardas, mas todos têm um exército de colaboradores, que pensa e age como verdadeiros ditadores. Por meio de conchavos com amigos/dirigentes/eleitores, não permitem que o sistema implantado seja derrubado.

Trabalho sem remuneração

Aqui, uma pergunta pertinente: Você trabalharia sem receber remuneração? Se for um trabalho de responsabilidade profissional, certamente que não. Mas os poderosos senhores do esporte brasileiro, ou seja, os presidentes das confederações juram que sim. Oficialmente, eles não podem ser remunerados por lei. Mas, estranhamente, se perpetuam no poder. Há décadas mandam e desmandam nas entidades, que recebem muito dinheiro do Governo. O incrível é que boa parte do dinheiro não é investida nos atletas e, sim, na administração das confederações, em burocracia.

Pior, não conseguem fazer do Brasil uma potência olímpica, embora não faltem talentos.

O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, por exemplo, está no poder desde 1995. Portanto, trabalha há 20 anos sem remuneração. Um samaritano a serviço do esporte, sem dúvida. Assim como ele, vários presidentes de confederações há décadas estão no trono. A grande maioria sempre votou na reeleição de Nuzman, que está em seu quinto mandato. Todos sem ganhar salário. Amor ao esporte?

Nos últimos anos, investigando os bastidores de entidades esportivas, encontramos graves indícios de corrupção e desvio de dinheiro público nas confederações de ciclismo, tênis, tênis de mesa, taekwondo, badminton, handebol, boxe e, principalmente, no campeoníssimo vôlei.

Até a Polícia Federal entrou no caso da confederação de taekwondo, denunciada por superfaturamento na compra de coletes eletrônicos e materiais para os Jogos Olímpicos do Rio, em 2016.

Há também indícios de um esquema de cartel envolvendo o COB e confederações com empresas prestadoras de serviços de viagens, jurídico e administrativo.

Enquanto isso, os atletas...

Nas últimas duas décadas, as coisas mudaram muito. E para pior. A ditadura que teria acabado em 1985 continua mais viva do que nunca no esporte na terra da próxima Olimpíada.

De mãos atadas e bocas amordaçadas, assim se encontram os atletas brasileiros. E a democracia conquistada com muita luta e sangue não pode ser praticada por atletas, técnicos, professores de Educação Física e até familiares. Não exercem sequer o direito do debate na tentativa de aprimorar a gestão das respectivas modalidades.

Quem ousa é simplesmente perseguido e, muitas vezes, até excluído das equipes e da seleção.

Hoje, entre os grandes ídolos do esporte olímpico brasileiro, Diogo Silva, que disputou os Jogos de Atenas/04 e Londres/12, é o melhor exemplo de atleta contestador em atividade. Já sofreu, e ainda sofre, por manter uma postura contrária aos desmandos da direção do taekwondo.

No passado existiam algumas cabeças pensantes, como a do medalhista de Los Angeles, o nadador Ricardo Prado. Uma voz que defendia mudanças na direção da natação e do esporte nacional, mas depois se calou.

Sobraram os também medalhistas olímpicos Lars Grael, da vela, e Ana Moser, do vôlei. Por pouco tempo. Lars assumiu uma das secretarias do Ministério do Esporte e ainda é cedo para ter seu desempenho avaliado. Já Ana Moser recebeu um convite da presidente Dilma para assumir a APO (Autoridade Pública Olímpica), responsável pelo legado dos Jogos da Rio/16 e pela articulação entre os governos federal, estadual e municipal, além de atender às necessidades do COI (Comitê Olímpico Internacional), do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) e do CORio2016 (Comitê Organizador dos Jogos),os dois últimos comandados por Carlos Arthur Nuzman, um dirigente que não combina com os ideais e pensamentos de Ana, principalmente quando se fala em política de esporte, algo que o Brasil ainda não desenvolveu.

Aliás, aos 45 minutos do segundo tempo, a Presidente Dilma desistiu de indicá-la ao cargo. Por dois motivos. Um porque Ana Moser não é bem vista por políticos aliados aos interesses pessoais. Dois porque Ana teria encabeçado um carta-protesto junto ao COI criticando a escolha do Brasil como como país sede. Na época, em 2009, Ana teria documentado que o pais tinha outras prioridades e que não teria capacidade para organizar os Jogos.

A verdade é que a medalhista olímpica de Atlanta/96 saiu de uma tremenda fria. Se fosse escolhida, ou teria sérios problemas de saúde, ou seria, no mínimo, obrigada a fazer vistas grossas no país da corrupção. Sorte dela que não deu certo.

Conclusão

No país dos próximos Jogos, um movimento assustador vem ganhando força em alguns setores da sociedade. Que pedem a intervenção militar, ou seja, o retorno da ditadura no Brasil.

Se não bastassem as cicatrizes que ficaram de 30 anos de tortura e mortes, ainda há gente que acredita na solução dos problemas sem democracia.

Vem aí a Rio '16, com o que temos de pior e melhor da Cidade Maravilhosa.

Então, sejam bem-vindos !

E...aquele abraço !!!

 

Publicação Original em  http://wsimag.com/pt/desporto/14833-ditadura-esporte-e-retrocesso