A MATANÇA DE NO GUN RI

Por: Alcione Costa










Quadro relata o Massacre na Ponte de No Gun Ri



A chacina de No Gun Ri ocorrida durante o início da Guerra da Coréia (1950), era praticamente desconhecida a nível internacional, ou seja, acobertada e escondida pelos governantes da República da Coréia, ainda que na Coréia milhares de pessoas conhecessem os fatos, até que em 29 de Setembro de 1999, a Associated Press publicou uma matéria relatando o trágico, e sangrento extermínio da indefesa e desarmada população civil daquela localidade. Por conta deste trabalho jornalístico, o artigo da A.P. ganhou o prêmio Pulitzer. Vejamos a seguir os fatos deste trágico e covarde evento histórico.

Logo após o acordo de armistício de 27 de Julho de 1953, o regime repressivo, ditatorial de Syng Man Rhee (1875-1965) obrigou a toda a população da República da Coréia a silenciar sobre as atrocidades cometidas por seu governo e Forças Armadas dos Estados Unidos contra o povo coreano. No agitado ano de 1960 quando o povo assistiu ao levante do movimento de jovens estudantes derrubarem, em 26 de Abril de 1960, o corrupto, tirano e opressor governo de Rhee. Os sobreviventes e familiares da chacina de No Gun Ri então tentaram reivindicar, denunciando as barbáries cometidas, mas lamentavelmente seus esforços foram em vão; tendo em vista que muito breve os militares tomaram o governo de curto período do 1º Ministro Chang Myon (1899-1966) através de golpe de Estado em 16 de Maio de 1961 liderado pelo então General do Exército da República da Coréia, Park Chung Hee (1917-1979).

Finalmente depois das eleições realizadas em 1992 que elegeram de maneira democrática o Pres. civil Kim Young Sam, o 1º Presidente civil eleito democraticamente em eleição direta após 32 anos de ditadura militar, o qual assumiu em 25 de Fevereiro de 1993 (gestão 1993-1998), os sobreviventes enviaram formalmente suas reivindicações ao então 42º Pres. dos Estados Unidos, William Jefferson Clinton, do Partido Democrata (gestão 1993-2001).

Assim, em 10 de Setembro de 1997 eles enviaram uma carta ao Presidente Clinton, descrevendo as atrocidades cometidas pelas tropas dos Estados Unidos quando do avanço das tropas de Kim Il Sung (1912-1994) do lado norte em direção ao sul no início da guerra da Coréia conforme relatos das vítimas sobreviventes.


















Livro sobre o massacre

Eles descreveram centenas de pacatos cidadãos da República da Coréia sendo evacuados, de várias aldeias, como por exemplo, Im Gae Ri e Joo Gok Ri, por militares dos Estados Unidos e conduzindo-os em direção a um córrego, durante a noite os retirantes observaram grande quantidade de tropas e veículos dos Estados Unidos passando em direção a Pusan e na madrugada percebendo estarem sem a presença de seus acompanhantes, resolveram então seguir pela estrada Seul-Pusan, quando chegaram às proximidades de No Gun Ri, apareceram vários soldados dos EUA que pararam as pessoas instruindo-as a seguir pelos trilhos da estrada de ferro para o topo do viaduto de No Gun Ri, neste ínterim comunicaram-se via rádio solicitando bombardeio aéreo e fugiram do local. Imediatamente surgiram jatos que bombardearam pesadamente aquela população exclusiva de civis, assassinando centenas de mulheres, idosos e crianças.

A grande maioria foi chacinada impiedosamente, ou seja, morta instantaneamente, alguns sobreviventes da barbárie conseguiram escapar inclusive utilizando-se em alguns casos dos corpos das pessoas mortas, como escudo, escondendo-se embaixo, no vão da ponte, e nos próximos dias, 26 a 29 de Julho de 1950 ainda foram atacados violentamente com morteiros, bombas, granadas e armas de grosso calibre, justamente por tropas terrestres do exercito americano.

Alguns sobreviventes do massacre, muitos gravemente feridos posteriormente receberam no local a visita de médicos das tropas norte-americanas os quais sequer ofereceram alguma ajuda, simplesmente anotaram sobre a situação dos sobreviventes naquela ponte, sobre isto, há relatos de situações horrorosas e extremamente chocantes.

Posteriormente veio a tona, um fato importantíssimo, ou seja, no dia 26 de julho de 1950 o gabinete do General de Divisão William B. Kean comandante da 25ª Divisão de Infantaria do Exército dos Estados Unidos deu ordens para que todos civis situados, ou seja, que estivessem movimentando-se nas áreas de combate seriam considerados inimigos e abatidos por isto.






















Este Livro é um excelente relato das atrocidades cometida nesta guerra.



Em relação aos pesados bombardeios pela aviação dos Estados Unidos, um repórter da CBS descobriu um memorando de 25 de Julho escrito pelo Coronel Turner Rogers, intitulado ´Manual de procedimento sobre o bombardeio de refugiados civis`. O memorando em questão indicava que por determinação do Exército dos Estados Unidos, todos os grupos civis que se aproximassem das posições das tropas dos Estados Unidos seriam bombardeados. Vários pilotos da aviação militar dos EUA comentaram sobre os bombardeios cujos alvos eram pessoas usando roupas brancas de camponeses, e também de pessoas civis que estivessem transportando cargas. Por outro lado, alguns pilotos contaram que se recusaram a cumprir as ordens de bombardear refugiados civis, retirantes, ou seja, muitos pilotos questionaram esta escolha de alvos. Sobre isto, um piloto relatou: ´Nós não tínhamos um sistema e rede de comunicações para controlar e coordenar operações aéreas e terrestres`.

Entrevistas com muitos veteranos dos efetivos militares dos EUA naquela guerra, confirmaram os bombardeios aéreos e ataques de tropas terrestres em população civil desarmada. Um veterano do Exército declarou que metralhou população civil por vontade própria sem ter recebido ordens, acreditando que pudesse haver guerrilheiros no meio da população e que somente matando todas aquelas pessoas, ele não correria o risco de ser morto, O veterano Eugene Hasselman, recordou um evento similar ocorrido uma semana após a matança de Nogun Ri: ´Nós recebemos ordens para eliminar população civil e nós dizimamos todos eles`, disse Eugene, o Exército não poderia perder tal chance.

O artigo da Associated Press mencionando documentos que naquele momento tinham sido tornados públicos pelos militares dos Estados Unidos, confirmou o grande envolvimento das Forças Armadas dos EUA em crimes de guerra premeditados, mesmo que supostamente não tivesse havido ordens, mas pelo menos ao tolerar sobre tais barbáries.

Em Janeiro de 2001 o Pentágono tornou pública sua investigação de longo tempo, e no relatório do tema, já abre o texto considerando procedente a história contada pela Associated Press e também os relatos dos sobreviventes e registra cronologicamente os acontecimentos na região da ponte, neste estudo de 1 milhão de documentos deste processo administrativo. É importante considerar que foram divulgadas fotografias aéreas e mapas, e esta revisão enfim, conclui que os militares dos Estados Unidos mataram um número desconhecido de população civil na ponte de Nogun Ri, por outro lado este trabalho de revisão não confirma se os soldados receberam ordens para cometer tal atrocidade.

Quanto à administração na condução de refugiados, o relatório mostra que:

A tarefa de manter inocentes civis fora da zona de perigo era uma tarefa de responsabilidade especificamente das autoridades da República da Coréia.

Também declara culpados por estas mortes, quase toda as partes envolvidas:

a) O Exército dos Estados Unidos pela falta de controle ao permitir ataques a civis desarmados;
b) A República da Coréia pela má-administração na movimentação (condução) dos refugiados;
c) República Democrática Popular da Coréia por ter iniciado a guerra;
d) Individualmente os soldados dos EUA que covardemente participaram das hediondas ações, por comprometerem o Exército com suas atitudes insanas, imorais e desonrosas referentes aos assassinatos.

Seguindo as conclusões da investigação, os Estados Unidos e República da Coréia anunciaram uma ´Declaração de Entendimento Mútuo`, sobre o incidente ocorrido em No Gun Ri, o documento menciona que o controle da movimentação de refugiados era de grande preocupação, e que os bombardeios do dia 26 em civis, não puderam ser confirmados; a declaração conclui que os soldados dos EUA mataram um número desconhecido de civis. O Presidente Clinton ofereceu um pedido de desculpas sem precedentes pelas mortes e anunciou a construção de um monumento memorial naquele local em honra e memória das vítimas, e também ofereceu bolsas de estudo.

Com a essência da matéria da Associated Press confirmada, que militares das Forças Armadas dos Estados Unidos, mataram população civil indefesa, a AP continuou a tratar do assunto através de um livro, ´A Ponte de No Gun Ri`, introduzindo mais fatos e testemunhos sobre os acontecimentos, e também criticando severamente ponto a ponto as investigações do Pentágono. Sobreviventes, suas famílias e grupos de defensores não ficaram satisfeitos com a tímida mostra de cooperação e acordo entre as duas nações, ou pelo tipo de compensação oferecida.

Em 20 de Julho de 2001 o advogado de um grupo de sobreviventes encenou um Tribunal Coreano de Crimes de Guerra no qual os Estados Unidos foi condenado simbolicamente pelas múltiplas acusações de Crimes de Guerra. Em Agosto de 2001 advogados entraram com uma ação judicial contra o governo dos Estados Unidos, acusando-o de violar a legislação de liberdade de informação dos Estados Unidos. O ponto crucial na questão ainda é a reparação por toda a tragédia e a rede de ressentimentos estende-se além do envolvimento dos Estados Unidos na Coréia, mas também por todo o mundo.

Ainda que seja questionável se estas medidas serão atendidas ou não, as evidências das descobertas durante as investigações mostram que não somente os soldados dos Estados Unidos mataram civis em No Gun Ri e outros locais, violando assim numerosos tratados internacionais governamentais de guerra: Geneva, Nuremberg, Hague e outros tratados de direitos humanos das Nações Unidas, mas que crimes de guerra são muitos mais comuns e muitos mais próximos de nós, em relação ao que as pessoas pensam.

Portanto, entre tantos outros acontecimentos não é surpresa, por exemplo, até mesmo o desaparecimento de registros de vôos, diários de bordo, das cabines de aviões, não é uma surpresa maior.

Para os Estados Unidos e outros países que freqüentemente tomam a iniciativa de entrar em conflitos em outros países, o reconhecimento destes históricos massacres é uma tarefa delicada, expondo mundialmente estes governos aos seus gravíssimos e contínuos erros de conduta, avaliação, de suas fracassadas respectivas políticas administrativa interna e externa e obviamente ocasionando grande repercussão negativa.


O autor, Alcione Prestes Costa é intenso pesquisador da cultura e das Artes Marciais Coreanas. É pioneiro na prática do taekwondo no RS.