38 anos de Taekwondo “oficial” no Brasil

“...Não é justo, depois de quase meio século de taekwondo no Brasil, e 38 anos de reconhecimento oficial, assistirmos a tantos conflitos de informações, eventos omitidos e histórias mal contadas.”


*Por José Afonso



O dia 31 de Janeiro é especial na história do taekwondo brasileiro. Foi nesta data, em 1974, que o Departamento Especial de Karatê da CBP (Confederação Brasileira de Pugilismo) emite parecer favorável a criação do Departamento Especial de Taekwondo. O parecer enviado ao presidente da CBP, Gen. Eurico de Andrade Neves Filho, assinado por Almeridio de Barros e Yasutaka Tanaka, responsáveis pelo caratê na CBP na época, atendia a diversos ofícios e cartas enviados pela Associação de Taekwon-Do da Bahia no início dos anos 70 até a data do parecer em definitivo.

Em documento circular publicado em 15 de Abril de 1974 a Confederação Brasileira de Pugilismo comunica que a Assembleia Geral realizada em 30 de Março de 1974 empossou uma nova diretoria com mandato de 1ª de Abril de 1974 a 31 de Março de 1977, e pela primeira vez aparece o “TAEKWONDO” como uma nova modalidade, sendo responsável pelo “novo” Departamento Especial de Taekwondo, o Assessor Roberto Carlos “Bob” Américo dos Reis e seu Assistente Woo Jae Lee.

As datas conferem com documentos oficiais e podem ser verificadas em artigos das revistas Kung Fu, Dô e no Aprenda Taekwondo, no Site do COB, entre outras publicações da época. E muito embora “Bob” fosse aluno do Mestre Lee, a Legislação Desportiva da época determinava que os cargos de Assessores Técnicos fossem privativos de brasileiros. O cargo foi subsequentemente ocupado por Luiz Eugênio Bezerra Mergulhão Filho (aluno de Lee), mais tarde, pelo próprio Mestre Woo Jae Lee (já naturalizado, provavelmente) e finalmente, pelo Mestre Yong Min Kim, até a Criação em 1987 da Associação Brasileira de Taekwondo (ABT), renomeada posteriormente Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTKD), em 1990.

Enfim o reconhecimento da Arte Marcial Coreana no esquema esportivo oficial brasileiro.

Outro fato relevante neste processo foi que no fim da década de 60 e início de 70, em função do total desconhecimento da Arte Marcial Coreana, o Taekwondo era chamado também de “Karatê Coreano”, já que era um termo de fácil entendimento da “nova” arte que surgia. A expressão Karatê Coreano, já conhecida nos EUA, era uma espécie de “apelido” que o Taekwondo recebia naquele momento, tanto que a expressão aparece em alguns registros da época, assim como, também foi usado no Rio de Janeiro, como nos lembra mestre Rodney Américo dos Reis, um dos remanescentes daquele período. Ironicamente, é provável que esta expressão tenha gerado alguma confusão entre as autoridades esportivas da época, de modo que este equívoco é percebido no próprio parecer do CBP, reconhecendo a demora neste processo, em função da falta de clareza entre o Karatê japonês e o Taekwondo ou “Karatê coreano” e como eles se confundiam na época. Mais tarde, em uma matéria de Luiz Mergulhão, “Taekwon-Do e Karatê Coreano” (Revista DO, nº 4 de Agosto/78, pag. 25) registra que quando o mestre WJLee era questionado sobre “ ‘O que é o Taekwon-Do?’ e, devido as dificuldades que tinha para se expressar, muitas vezes falava: ‘Taekwon-Do é Karatê Coreano’.”

Por conta do parecer favorável da CBP, alguns remanescentes daquele período nos dão conta de que na época houve uma reunião de mestres coreanos no Rio de Janeiro. Registros objetivos e data, ainda não localizados. Mas, supõe-se que tenha ocorrido no mês de Fevereiro ou Março de 74. Carece estabelecer com maior precisão os exatos participantes daquela pouco conhecida e pouco mencionada (porém decisiva reunião), embora haja menção sobre terem sido sete, os participantes. Em esforço de reconstituição dos fatos, baseando-se em depoimentos de mestres daquele período, acreditamos que os nomes prováveis teriam sido os seguintes:

Do grupo de mestres pioneiros no Sudeste (então ligados à International Taekwondo Federation -ITF e, mais tarde, à Korea Taekwondo Association-KTA e World Taekwondo Federation-WTF, via Chang Moo Kwan), estariam presentes cinco Mestres: Sang Min Cho (SP, chegado ao Brasil em 1970), Kum Jun Kwon (SP, 1971), Sang In Kim (SP, 1971), Kwang Soo Shin (SP, 1971) e Woo Jae Lee (SP, 1971 e RJ, 1972), Do grupo de pioneiros no Nordeste (então ligados à KTA, mais tarde WTF, via Moo Duk Kwan): Jung Do Lim (BA, 1968) e Jung Roul Kim (BA, 1971, SE, 1972 e RJ, 1973).


O objetivo da reunião teria sido indicar um representante para o departamento que se criava. O grupo do Sudeste, ambos da ITF, era mais numeroso, o que explica que o nome escolhido tenha sido alinhado com o mesmo. Dentre os membros daquele grupo, o Mestre WJLee teria maior peso, por atuar no Rio de Janeiro, onde se encontrava sediada a CBP, assumindo formalmente o posto de Assistente Técnico, conforme permitiam as regras a um estrangeiro, enquanto que seu discípulo de confiança, “Bob” Reis assumia o cargo de Assessor do Departamento.

WJLee, com os Irmãos Rodney e Bob Américo dos Reis - Livro Aprenda Taekwon-Do


Infelizmente, dois brasileiros que participaram mais intensamente deste processo histórico já faleceram, sendo esses; Ubaldo Alcântara (BA), aluno e parceiro intelectual de JDLim, crucial neste processo, e o “Bob” Américo dos Reis (RJ) - ao lado de WJLee de Dobok e faixa branca, na imagem acima - , um dos primeiros alunos de WJLee na Escola Americana do RJ e escolhido para ocupar o posto de Assessor Especial do Taekwondo na CBP.

Jung Do Lim com Ubaldo, por volta de 1971, já nos tempos da Associação de Taekwondo da Bahia

Deste período, outros acontecimentos e relevantes personagens foram esquecidos pela história contada e recontada desde então. Um destes é o fato da eterna discussão de quem introduziu o taekwondo no Brasil. Os mestres ITF da época enviados pelo Gen. Choi trabalham com o ano de 1970, com chegada de Sang Min Cho em São Paulo, abrindo caminhos para diversos outros, nos anos subsequentes. É crucial a importância deste grupo, sobretudo a partir do fato político de que o Mestre Woo Jae Lee tomou a frente do processo após aquela decisiva reunião, nele permanecendo por mais de uma década. Mestre WJLee liderou o redirecionamento daquele grupo da ITF à KTA e WTF, por intermédio da Chang Moo Kwan; após a saída do Gen. Choi da Coréia, por volta de 1972-73. Mestre Lee também teve a iniciativa de trazer diversos mestres, sobretudo desta escola (mas alguns também de outras, filiadas à KTA e WTF), que se espalharam pelo Brasil e passaram a exercer importantes papéis, no processo político e técnico do taekwondo no Brasil.

Foto histórica publicada numa das revistas Dô, déc. de 70. Na Foto os pioneiros da ITF em São Paulo em evento histórico.

Por outro lado, não é menor a relevância de outro grupo, o da Moo Duk Kwan da Bahia. É com Jung Do Lim que o taekwondo assume papel determinante entre as Artes Marciais da época. É este mestre coreano que chega a Cruz das Almas em 1968 onde ensina taekwondo na região e no ano seguinte começa a ensinar o Taekwondo de forma sistemática na Academia Senavox em Salvador. A partir de 1970, com a ajuda de alunos e colaboradores, destaque para o Coronel Otto Freitas de Aguiar (da Polícia Militar da Bahia) e Ubaldo Alcântara (pesquisador da história das artes marciais de renome internacional), começa a articular a Associação de Taekwondo da Bahia onde estes dois vão ser no ano seguinte presidente e vice respectivamente desta entidade, que foi a primeira entidade praticante especializada em taekwondo, reconhecida pelo Sistema Desportivo Nacional.

Da esquerda para a direita, ao centro, por volta de 1971, nos tempos da Associação de Taekwondo da Bahia: Jung Do Lim (Tkd), Jung Duk Lim (Hkd KSW) e Jung Roul Kim (Tkd).


No ano seguinte (1971), com a chegada de Jung Roul Kim, o grupo cria força e inicia-se o processo de reconhecimento do Taekwondo como uma arte dissociada do Karatê Japonês. Em 1972, o grupo, além da Associação de Taekwondo da Bahia, já se preparava para criar a Associação de Taekwondo e Cultura Física de Sergipe, que se configura legalmente, em 11 de Maio de 1973.

Ms Jung Roul Kim e Ms Jung Do Lim fazendo apresentação na época.


Com um grupo qualificado e articulado e duas entidades de taekwondo legalmente registradas, a investida do reconhecimento oficial se intensifica e o sucesso da empreitada se torna irreversível, o que acaba se confirmando em data já mencionada no início de 74.

Anos mais tarde, já no Rio de Janeiro, com o apoio do Sr. Carlos Couto, Mestre Jung Roul Kim assume em 1978 a Assessoria do Departamento de Taekwondo da Federação Carioca de Pugilismo. Em 1982 JRKim e Couto fundam a Federação de Taekwondo do Estado do Rio de Janeiro, a primeira federação de taekwondo desvinculada do Pugilismo, no Brasil. A partir de então, a Federação do RJ teria papel crucial de decidir a desvinculação do taekwondo da CBP, e a fundação da Associação Brasileira de Taekwondo, assim como na primeira e sucessivas eleições de sua Presidência, com os cargos superiores ocupados por Yong Min Kim, Jung Roul Kim e Carlos Couto.

O processo é bem amplo e vai além das datas “oficialmente” propagadas

Há também registros da presença de outros mestres coreanos de Taekwondo atuando no Brasil, anteriormente àqueles já mencionados, porém cuja atuação no processo de institucionalização do esporte poderia apresentar controvérsias. Não há, contudo, razão para deixar de reconhecer o trabalho pioneiro que cada um deles realizou, aproveitando-se aqui para fazê-lo.

Mestre Yung Man Kim, “Maluco Kim”.  Foto disponível em academiataesul.blogspot.com

O primeiro a ter chegado ao Brasil pode ter sido o Mestre Yung Man Kim, que teria ensinado no interior da Bahia em 1967, não se sabe exatamente a partir de quando. Segundo praticantes antigos, aquele mestre esquentado e brigão (também conhecido como “Maluco Kim”) teria, logo de início, se metido em confusão com um Comandante do destacamento militar de Lagoinha (BA), e teve de sair às pressas da região. Ainda naquele ano de 1967, transferiu-se para Maceió, Alagoas, onde montou academia no prédio da antiga Panificação Elétrica, Praça dos Palmares, Centro. Não ficou muito tempo, transferindo-se para o Paraná, onde também ensinou por algum tempo. Foi o introdutor do Taekwondo no Rio Grande do Sul, chegando a Porto Alegre em 1974, lá dando aulas em várias academias e formando uma das melhores equipes do país, na década de 70. Consta que aquele pioneiro chegou ao Brasil na graduação de 3º Dan, pela Chin Moo Kwan, uma escola menor, na Coreia, e tinha excelente técnica e um taekwondo bastante voltado para a luta. Nunca reclamou reconhecimento como introdutor do taekwondo no Brasil, talvez por ter aceitado a autoridade do Mestre Sang Min Cho, líder do grupo do Sudeste, que lhe prestou grande apoio, em suas atividades no Rio Grande do Sul. Em 1977, já ostentava o 6º Dan, tendo falecido tragicamente, em acidente de automóvel, em São Paulo, em 1980.



Mestre Yung Man Kim, também conhecido como “Maluco Kim”, apreciador de uma boa briga, com seus excelentes alunos gaúchos. À sua direita, Edson Bernardes Batista, à esquerda e abaixo, os Irmãos Carlos e Cláudio Makino. Foto disponível em academiataesul.blogspot.com

Há também registros da presença de outro mestre coreano pioneiro, no interior da Bahia, o Mestre Cho Nam Chil, que teria também ensinado ali, por volta de 1967. Talvez, estes dois (YMKim e CNChil) não tenham sido os únicos, naquela região. Provavelmente, a concentração de mestres coreanos na região deve-se ao fato de haver colonização agrícola em Cruz das Almas, por parte de japoneses e coreanos.

Sang Min Cho e Byong Kuk Lee 1973. Segundo o Ms. Marcio Gomes (PE), esta foto tem valor histórico inestimável, por se tratar de um registro “raro”,  quando SMCho e BKLee foram buscar o Gen. Choi no hotel para um jantar oferecido pela Colônia Coreana em SP na ocasião em que esteve no Brasil em Março de 1973.


A cidade de Recife, Pernambuco também recebeu alguns daqueles primeiros pioneiros. Foi o caso, por exemplo, do Mestre Byung Kuk Lee, que lá chegou em 26 de janeiro de 1967, introduzindo a prática do taekwondo no começo do ano seguinte, no IV Batalhão de Comunicação do Exército. Mestre Lee acabou dedicando-se mais ao judô, outra modalidade em que era graduado, sendo um dos Kodansha pioneiros do judô no Nordeste. Segundo alguns relatos orais, aquele pioneiro vinha da Chang Moo Kwan, o que parece explicar a vinda de outro mestre daquela escola, logo em seguida.

Mestres Byung Kuk Lee e Jung Kil Moon no cais do porto de Recife, em 1971.

Em 1971, a cidade de Recife recebeu o Mestre Jung Kil Moon, aluno direto de Nam Suk Lee, da Chang Moo Kwan. Este último introduziu o taekwondo no Esporte Clube do Recife, onde realizou o primeiro exame de faixas em 26 de junho daquele ano, deixando ali alunos que continuaram seu trabalho. Em 1972, porém, há registros de que o Mestre JKMoon assumia o United Karate Studio, na Georgia, EUA, transferindo-se para New York, ainda naquele ano.

Mestre Jung Kil Moon com seus alunos no Sport Club Recife (Recife-PE), 1971



A partir de 74 o taekwondo ganha força

A partir deste momento o cenário taekwondista toma outros rumos. Em São Paulo, inserido na forte colônia coreana desde 1970, o taekwondo tem divulgação e proeminente relevância no cenário das artes marciais. Na Bahia, já estabelecido desde a virada da década, também. Assim como em outros estados, mostrando um dinâmico processo expansionista.

Nestas alturas, com o apoio de um grupo que merece destaque no Rio de Janeiro, o GM WJLee vai se firmando no poder. Vale considerar que ele contava, dentre seus alunos mais próximos e atuantes, além de Bob e Rodney Américo, com oficiais do comando da Polícia Militar do Rio de Janeiro, como o então Tenente Coronel Arthur Rosa Delamare e o então Tenente Coronel Vidal, que chegariam a ocupar cargos de Assessores de Taekwondo na Federação Carioca de Pugilismo, além de Luís Eugênio B. Mergulhão Filho. Estes últimos tinham influência na Editora Ebal, responsável pela Revista Kung Fú, muito influente na época. De modo que, a partir das edições do segundo semestre de 1975, a revista passa a ser, literalmente, a voz “oficial” do taekwondo. Por ela tramitou informações relevantes, histórias, orientações e estratégias expansionistas fundamentais para o sucesso da “franquia” Lee Taekwon-Do Club, que mais tarde se tornaria decisiva na consolidação do taekwondo por todo o Brasil.

Os 3 primeiros Assessores do Departamento Especial de Taekwondo da CBP - Rev. Kung Fú, Dec de &)

Neste contexto histórico, conseguimos reproduzir um pouco do que possa ter efetivamente acontecido. Porém, há muita informação e eventos que precisam vir à tona de modo a escrevermos uma história mais razoável dos primórdios do taekwondo brasileiro. E isto só será possível se personagens da época ainda vivos ou pessoas mais próximas destes pioneiros publicarem suas memórias ou registros.

Não é justo, depois de quase meio século de taekwondo no Brasil, e 38 anos de reconhecimento oficial pelos órgãos governamentais deste país, assistirmos a tantos conflitos de informações, eventos e personagens omitidos e histórias mal contadas.

O sobredito é o mínimo que podemos fazer para resgatarmos a nossa história e nossa herança marcial e o Taekwondo Brasileiro, sua consequente identidade.


*O autor é José Afonso - Faixa Preta de Taekwondo e Articulador deste Site.

Créditos e Agradecimentos a:

  • Carlos Eduardo Nogueira Loddo - Maior autoridade sobre a História do Taekwondo neste país.
  • Alexandre ‘Baby’ Gomes - Estudioso e grande conhecedor da História do Taekwondo, especialmente da Escola Chang Moo Kwan.
  • Galera TKD - Grupo de estudos e debates dos temas e histórias do Taekwondo no Facebook que não mede esforços para compartilhar opiniões, informações e conhecimentos.