A GUERRA DA CORÉIA NO LADO NORTE - 1ª Parte

TÍTULO ORIGINAL: Memórias de Fogo (Parte I)

Os Estados Unidos, que acusam a Coréia de estar produzindo armas de destruição em massa, não hesitaram, desde os anos 40, em usá-las. É esta a história desconhecida da guerra do Coréia, que aniquilou cidades e matou milhões de pessoas com bombardeios de napalm.

Por: Bruce Cumings

Mais que uma guerra ´esquecida`, valeria a pena falar, tratando-se da guerra da Coréia (1950-1953), como uma guerra desconhecida. O efeito inacreditavelmente destrutivo das campanhas aéreas norte-americanas contra a Coréia do Norte – que foram do despejo contínuo e em grande escala de bombas incendiárias (essencialmente com napalm) às ameaças de recurso a armas nucleares e químicas(1) e à destruição de gigantescas barragens norte-coreanas na fase final da guerra – é indelével. Estes fatos são, no entanto pouco conhecidos, mesmo pelos historiadores, e as análises da imprensa sobre o problema nuclear norte-coreano nestes últimos dez anos nunca as mencionaram.

A guerra da Coréia tem fama de ter sido limitada, mas ela foi bem parecida com a guerra aérea contra o Japão imperial durante a Segunda Guerra mundial. E foi freqüentemente dirigida pelos mesmos responsáveis militares norte-americanos. Se os ataques de Hiroshima e Nagasaki foram objetos de inúmeras análises, os bombardeios incendiários contra as cidades japonesas e coreanas receberam bem menos atenção. Quanto às estratégias nuclear e aérea de Washington no nordeste asiático depois da guerra da Coréia, estas foram ainda menos compreendidas, ao passo que estas estratégias definiram as escolhas norte-coreanas e permanecem um fator chave na elaboração da estratégia norte-americana em matéria de segurança nacional. (...)

O napalm foi inventado no fim da Segunda Guerra mundial. Sua utilização provocou um debate de grandes proporções durante a guerra do Vietnã, fomentado por fotos intoleráveis de crianças que corriam nuas sobre as estradas, com a pele em farrapos... Uma quantidade ainda maior de napalm foi, no entanto despejada sobre a Coréia, com efeito, bem mais devastador, porque a República Popular Democrática da Coréia (RPDC) tinha maior número de cidades populosas que o Vietnã do Norte. Em 2003, eu participe de uma conferência ao lado de ex-combatentes norte-americanos da guerra da Coréia. No momento de uma discussão a respeito de napalm, um sobrevivente da batalha do Reservatório de Changjin (Chosin, em japonês), que havia perdido um olho e uma parte da perna, afirmou que esta arma era, bem entendido, ignóbil, mas que ela ´caíra sobre as pessoas de bem`.

1 - Cenas macabras

As pessoas de bem? Como quando um bombardeio atingiu por engano uma dúzia de soldados norte-americanos: ´Em toda minha volta os homens estavam queimados. Eles rolavam na neve. Homens que eu conhecia, com quem eu havia marchado e combatido, suplicavam que eu atirasse neles... Era terrível. Quando o napalm havia queimado completamente a pele, ela se descolava em farrapos do rosto, dos braços, das pernas... como batatas chips(2)`.

Um pouco mais tarde, George Barrett, do New York Times, descobriu um ´tributo macabro à totalidade da guerra moderna` numa vila ao norte de Anyang (Coréia do Sul): ´Os habitantes de toda a cidade e dos campos em torno foram mortos e conservaram exatamente a posição em que estavam quando foram atingidos pelo napalm: um homem se preparava para montar na bicicleta, cinco dezenas de crianças brincavam num orfanato, uma mãe de família estranhamente intacta tinha na mão uma página do catálogo Sears-Roebuck onde estava o pedido n° 3 811 294 de uma encantadora espreguiçadeira de cor coral`. Dean Acheson, secretário de Estado, queria que este tipo de ´reportagem sensacionalista` fosse denunciada à censura, a fim de que se possa nelas colocar um fim(3).

Uma das primeiras ordens para incendiar as cidades e as vilas que encontrei nos arquivos foi dada no extremo sudeste da Coréia, enquanto combates violentos se desenrolavam ao longo do perímetro de Pusan. Era o começo de agosto de 1950, quando milhares de guerrilheiros assediavam os soldados norte-americanos. No dia 6 de agosto de 1950, um oficial norte-americano deu à força aérea a ordem de ´obliterar as seguintes cidades`: Chongsong, Chinbo e Kusu-Dong. Bombardeiros estratégicos B-29 foram igualmente empregados para bombardeios táticos. No dia 16 de agosto, cinco formações de B-29 atacaram uma zona retangular próxima ao front, que contava um grande número de cidades e vilas. Criaram um oceano de fogo, despejando centenas de toneladas de napalm. Uma ordem semelhante foi emitida no dia 20 de agosto. E no dia 26 de agosto, encontramos nestes mesmos arquivos a simples menção: ´onze vilas incendiadas(4)`. (...)

2 - Chuvas de Napalm

Os pilotos tinham ordem de atacar os alvos que eles pudessem discernir para evitar atingir civis, mas eles bombardeavam freqüentemente centros populacionais importantes identificados por radar, ou despejavam enormes quantidades de napalm sobre objetivos secundários, nos casos em que o alvo principal não pôde ser atingido. A cidade industrial de Hungnam foi alvo de um ataque maior no dia 31 de julho de 1950, no curso do qual 500 toneladas de bombas foram soltas através das nuvens. As chamas se elevaram a até uma centena de metros.

O exército norte-americano despejou 625 toneladas de bombas sobre a Coréia do Norte no dia 12 de agosto, uma tonelagem que teria requerido uma frota de 250 B-17 durante a Segunda Guerra mundial. No fim de agosto, as formações de B-29 derramavam 800 toneladas de bombas por dia sobre o Norte(5). Esta tonelagem consistia em grande parte em napalm puro. De junho a fim de outubro de 1950, os B-29 derramaram 3,2 milhões de litros de napalm.

No seio da força aérea norte-americana, alguns se deleitavam com as virtudes deste exército relativamente novo, introduzido no fim da guerra precedente, rindo-se dos protestos comunistas e confundindo a imprensa ao falar de ´bombardeios de precisão`. Os civis, gostavam eles de supor, eram prevenidos da chegada dos bombardeiros por panfletos, enquanto que todos os pilotos sabiam que estes panfletos não tinham qualquer efeito(6). Isso não era mais que um prelúdio da destruição da maioria das cidades e vilas norte-coreanas que iria se seguir à entrada da China na guerra.

A entrada dos chineses no conflito provocou uma escalada imediata da campanha aérea. A contar do início de novembro de 1950, o general MacArthur ordenou que a zona situada entre o front e a fronteira chinesa fosse transformada em deserto, que a aviação destruísse todos os ´equipamentos, usinas, cidades e vilas` nos milhares de quilômetros quadrados do território norte-coreano. Como relatou um assessor militar britânico do quartel-general de MacArthur, o general norte-americano deu ordem para ´destruir todos os meios de comunicação, todos os equipamentos, usinas, cidades e vilas`, com exceção das barragens de Najin, próximas à fronteira soviética e de Yalu (poupadas para não provocar Moscou e Pequim). ´Esta destruição (deveria) começar na fronteira manchu e continuar em direção ao sul`. No dia 8 de novembro de 1950, 79 B-29 despejaram 550 toneladas de bombas incendiárias sobre Sinuiju, ´riscando a cidade do mapa`. Uma semana depois, um dilúvio de napalm se abatia sobre Hoeryong ´com o objetivo de liquidar o local`. No dia 25 de novembro, ´uma grande parte da região noroeste entre Yalu e as linhas inimigas mais ao sul (...) está mais ou menos incendiada`. A zona logo iria se tornar uma ´extensão deserta de terra queimada(7)`.

Tradução: Fabio de Castro
Fonte: LE MONDE diplomatic
Texto Completo - http://diplo.uol.com.br/2004-12,a1035

1 - Stephen Endicott, Edward Hagerman, ´As armas biológicas da guerra da Coréia`, Le Monde diplomatique, julho de 1999.
2 - Citado em Clay Blair, Forgotten War, p. 515.
3 - Arquivos nacionais norte-americanos, dossiê 995.000, caixa 6175, despacho de George Barrett, 8 de fevereiro de 1951.
4 - Arquivos nacionais, RG338, dossiê KMAG, caixa 5418, diário KMAG, entradas dos 6, 16, 20 e 26 de agosto de 1950.
5 - New York Times, 31 de julho, 2 de agosto e 1o de setembro de 1950.
6 - Ver ´Air War in Korea` em Air University Quarterly Review 4, n° 2, outono de 1950, pp. 19-40 e ´Precision bombing` in Air University Quartely Review 4, n° 4, verão de 1951, pp. 58-65.
7 - Arquivos MacArthur, RG6, caixa 1, ´Stratemeyer para MacArthur`, 8 de novembro de 1950; Public Record Office, FO 317, documento n° 84072, ´Relatório aos chefes do Estado Maior`, 6 de novembro de 1950; documento n° 84073, 25 de novembro de 1959.

OBS: CONTINUA NO TEXTO II