A TRÁGICA E FORÇADA SEPARAÇÃO DE MILHÕES DE FAMÍLIAS COREANAS

Por: Alcione Prestes Costa

















Coréia, um Tigre dividido





Uma Coréia ´livre e independente` havia sido prometida pelos Estados Unidos, Rússia, Reino Unido e China (as Potências Aliadas), através da Declaração do Cairo em Novembro de 1943 e da Declaração de Potsdam de Julho de 1945, respectivamente.

As tropas soviéticas invadiram o Estado de Manchukuo, (um estado fantoche na Manchúria, invadida em 1931 pelos japoneses) em 08 de Agosto de 1945, na chamada ´Operação Tempestade de Agosto`, comandada pelo Marechal Alexander Vasilevsky (1895-1977) e posteriormente penetraram na região norte da Coréia.

As tropas norte-americanas entraram na Península pelo Porto de Inchon, em 08 de Setembro de 1945, comandadas pelo famoso general John Reed Hodge (1893-1963) comandante da 24ª Corporação do 10º Exército dos Estados Unidos. Tanto os norte-americanos como os soviéticos estabeleceram um regime militar nas áreas que ocupavam respectivamente, em vez de permitirem que os coreanos naturalmente governassem seu próprio país, mesmo depois das guarnições japonesas na Coréia terem sido desarmadas.

A absoluta maioria dos coreanos quando souberam da rendição de seus opressores japoneses, aos aliados, através da famosa mensagem de radio lida pelo próprio imperador Hirohito (1901-1989) em 15 de agosto de 1945. Obviamente ficaram radiantes, tamanha a felicidade, contentamento e alegria, e certamente contando com a automática, total, irrestrita e imediata independência de sua pátria mãe.

É importante lembrar que a capitulação nipônica foi ocasionada pelas conseqüências das duas armas nucleares lançadas pelos Estados Unidos em Hiroshima 06/08/45 (Urânio) e em Nagasaki 09/08/45 (Plutônio).

Entretanto, o júbilo nacional dos coreanos muito cedo se transformou em desapontamento, indignação e revolta, quando a divisão territorial ao longo do paralelo 38 foi anunciada. E vale lembrar que a iniciativa de dividir a Coréia foi tomada pelo 33º Presidente dos Estados Unidos da América Harry Truman (1884-1972).

Em 11 de agosto de 1945 Harry Truman ordenou ao seu Deptº de Guerra a seguinte missão, a famosa Ordem do Dia nº.1: Organizar, preparar, montar, que seria redigir formalmente o documento de rendição das forças japonesas de ocupação. Essa tarefa foi atribuída a dois jovens oficiais militares, o Cel. Charles Hartwell Bonesteel (1909-1977), que chegou ao posto de general de 4 estrelas ainda na ativa, e o Cel. Dean Rusk (1909-1994), posteriormente Secretário de Estado nas gestões dos Presidentes John F. Kennedy (1917-1963) e Lindon B. Johnson (1908-1973).

Nesta Ordem estava incluída a tarefa de dividir a península em duas zonas distintas, os dois oficiais escolheram então o Paralelo 38 como Divisa; Joseph Stalin (1879-1953) logo foi consultado e concordou. No dia 02 de Setembro de 1945 a rendição foi formalmente assinada por oficiais japoneses e recebida pelo lendário general Douglas MacArthur (1880-1964) a bordo do Couraçado Missouri dos Estados Unidos na baía de Tóquio.

A verdadeira causa da divisão nunca foi totalmente esclarecida, muito embora o resultado verdadeiro tenha sido o de permitir que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas ocupassem a parte setentrional da nação.

Lembrando que a União Soviética e os Estados Unidos tinham sido aliados na 2ª Guerra e levando em conta o fato de serem nações antagônicas em relação a seus específicos sistemas: político (ideológico, doutrinário), econômico e social, ocasionando assim uma total, recíproca falta de confiança entre os mesmos, ou seja, eles achavam que se um abandonasse sua respectiva parte ocupada o outro aproveitaria tal oportunidade e imediatamente ocuparia toda a península.

Considerada como a raça mais homogênea e distinta, uma só tradição cultural, os coreanos possuem a mesma história de milhares de anos, mesmo idioma (Ural-Altaico), mesmo alfabeto Hangul, mesma característica física, ou seja, o povo coreano tem um forte senso de independência, diligência, patriotismo e solidariedade.













Um só país, uma só nação, dividida no paralelo 38° N











Há 10 milhões de famílias separadas, sem qualquer contato desde a separação 1945, formalização 1948 e a guerra fratricida (1950-1953). Uma das maiores tragédias da face da terra, que nem mesmo Kafka (1883-1924) poderia imaginar. São milhões de famílias: irmãos, filhos, sobrinhos, netos, primos, amigos, padrinhos, afiliados, que nunca mais puderam se ver ou comunicar. No exemplo da separação entre Alemanha e Vietnã, as pessoas podiam pelo menos as pessoas trocar cartas. Na Coréia, até a troca de correspondências é vetada. E, infelizmente, nestes mais de 50 anos, muitos destes coreanos já morreram.

A Comissão Conjunta, composta de representantes pelas forças de ocupação: os nortes americanos no sul e os soviéticos no norte - foi estabelecida no início de 1946, segundo o acordo entre os Ministros do Exterior da América, da Rússia e da Inglaterra, firmado em 27 de Novembro de 1945, em Moscou para formar um governo provisório na Coréia. O governo provisório, se e quando criado, deveria incluir representantes de organizações sociais e políticas da Coréia sob uma ´administração` por um período máximo de 5 anos, supervisionado pelos Estados Unidos, Grã-bretanha e China.

A Comissão conjunta Russo-Americana foi encarregada de encontrar uma fórmula para organizar um governo provisório e preparar o caminho para o estabelecimento de ´um governo unificado e democrático` em toda a Coréia. Ela se reuniu em Pyongyang e Seul, em 1946 e 1947, mas não chegou a nenhum acordo. Além disto, a absoluta maioria do povo coreano não queria ´administração` alguma e exigiu imediata independência para sua Pátria.

Quando os esforços conjuntos russo-americanos não conseguiram qualquer resultado tangível, a questão coreana foi levada para a Assembléia Geral das Nações Unidas que, em Setembro de 1947, aprovou uma resolução para efetuar eleições gerais na Coréia, a fim de lhe assegurar imediata independência e unificação.

A Comissão Temporária da ONU para Assuntos Coreanos foi formada em 1947 e enviada para Seul, no ano seguinte para preparar e supervisionar as eleições. Entretanto, os soviéticos e seus seguidores no norte se recusaram a cumprir a resolução das Nações Unidas, boicotando a entrada dos membros da Comissão na parte norte da Coréia.

No lado sul, Syngman Rhee (1875-1965), que era metodista, falava um inglês fluente e era considerado o primeiro coreano a obter doutorado em Princeton. Ele foi escolhido pelo Exército dos Estados Unidos para ser o líder da parte sul da península, levado secretamente para Seul em 1945, e ajudou a construir o que se tornaria uma máquina política, cruel, devastadora e implacável.

Inúmeros coreanos moderados foram assassinados, torturados e encarcerados. Além de cometer vários massacres contra o pacato povo coreano, ele foi eleito presidente da República da Coréia, exatamente nas eleições realizadas em 10 de Maio de 1948, tomando posse exatamente em 15 de Agosto de 1948 para coincidir com o aniversário da libertação do jugo japonês. A crueldade e corrupção de seu regime continuaram durante os 3 anos da Guerra da Coréia, quando a Coréia do Norte invadiu a do Sul em 25 de Junho de 1950. Encerrado o conflito em 27 de Julho de 1953, Rhee continuou perseguindo seus opositores e venceu 3 eleições de forma fraudulenta. Em 1960 os norte-americanos retiraram o apoio a Rhee levando-o a renunciar em 26 de Abril de 1960. Syngman Rhee foi exilado no Havaí, onde morreu em Honolulu em 19 de Julho de 1965 aos 90 anos de idade.

No lado norte, Kim Il Sung (1912-1994) que recebera treinamento militar na União Soviética foi eleito Secretário Geral do Comitê Central do Partido Trabalhista em 03.09.1948 e em 09.09.1948 foi formalizada a República Popular Democrática da Coréia.

Neste momento Kim Il Sung torna-se 1º Ministro, sendo adotado um regime totalitário Stalinista. Em 28/12/1972, Kim é eleito Presidente da República Popular Democrática da Coréia. O regime foi marcado por uma mistura de fantasia, ditadura, tirania e culto à personalidade de Kim (aclamado pelos norte-coreanos como ´Grande Líder`), transformou o país e o povo em os mais isolados e afastados da realidade mundial, são raros os turistas que visitam o país e há pouco intercâmbio comercial com o exterior.

Sobre a separação ocorrida em 1945 a partir do paralelo 38 e a formalização em 1948, e também durante e após a guerra (1950-1953), dezenas de milhares de fugitivos do regime stalinista abandonaram uma parte ou até mesmo a família inteira, ou seja, conseguiram fugir principalmente para o lado sul. Muitos acreditavam que a separação seria temporária e que a reunificação do país aconteceria em breve.

Em 1985, durante a gestão do Gen. Chun Do Hwan (Sul) e Kim Il Sung (norte), houve o primeiro encontro permitido oficialmente pelos dois lados. 50 familiares encontraram-se em Seul e Pyongyang respectivamente durante 3 dias, 20 a 22 de Setembro.



Depois de 47 anos Idosa norte-coreana chega em Seul para rever familiares depois de ½ século separados.



Após o encontro dos Presidentes Kim, na península (o único ocorrido até hoje), quando Kim Dae Jung (gestão 1998 a 2003), vulgo D.J. apelidado de Mandela da Ásia por sua incansável e intensa atuação em defesa dos direitos humanos e pela reconciliação entre os dois lados, encontrou-se no mês de Julho de 2000 durante 3 dias (13 a 15) com o Pres. Kim Jong Il, em Pyongyang, de lá para cá ocorreram mais de uma dezena de encontros de 3 dias entre familiares separados permitidos oficialmente em: Seul, Pyongyang e Monte Gum Gang. A iniciativa do evento (encontro) levou Kim Dae Jung a conquistar o Premio Nobel da Paz no ano 2000.

Sobre o Autor: O Sr. Alcione Prestes Costa, ex-praticante da arte, é um aficionado, dedicado, intenso pesquisador e estudioso das artes marciais coreanas.