Histórias da Coréia: O Massacre de Kwangju

Por: José Afonso

A Coréia, por ser a pátria do Taekwondo e país de origem de tantos grandes mestres que ainda vivem e atuam entre nós, sempre despertou muito interesse e curiosidade. Um desses interesses é a História do Taekwondo (até hoje muito mal contada). Ora, não podemos dissociar o Taekwondo da História Coreana e as lacunas na história dessa arte se encontram espalhadas nos diversos momentos da história da Coréia.

O Massacre de Kwangju (que também pode ser encontrado com a seguinte grafia: Gwangju, embora, ambas tenham a mesma pronúncia: kuwanju), foi um incidente que marcou a as lutas sociais em busca da democracia naquele país e mostra o quanto o povo coreano foi desrespeitado e privado de sua liberdade e do exercício pleno de sua cidadania.

Mostra também a coragem e determinação de um povo que não suportava mais tanta tirania e que depois de um longo e muito doloroso período - quase um século (1910 - 1986) - sob regimes autoritários, foi à luta e pagou um preço muito alto; Mas conseguiu criar as bases para uma sociedade livre, moderna e democrática.

Todavia, para entender esse incidente de maio de 1980 é preciso resgatar alguns elementos históricos das décadas anteriores.

Um pouco da História

Sabemos que, mesmo sob o domínio japonês na primeira metade do século passado, vários cidadãos coreanos, de um modo ou de outro, tentaram se organizar para regatar a nação para os seus legítimos donos, o povo coreano. O que acabou acontecendo no final da 2º Guerra com a ajuda das forças norte americanas.

A Guerra da Coréia, no início da década de 50, é um capítulo a parte. Foi uma matança sem precedentes entre os coreanos. Os coreanos do norte, apoiados pelo bloco comunista e os do sul, apoiados pelos americanos.

Depois desta famigerada e sangrenta guerra, firmou-se no poder o nacionalista Syngman Rhee. Porém, ao invés da democracia, veio a centralização do poder. Até que no final da década de 50, Syngman Rhee foi forçado a deixar o poder sob forte apelo popular e acusações de corrupção.

Mas o pior ainda estava por vir, pois no lugar da tão sonhada democracia, instaura-se a partir de 1961, a Ditadura Park.

A Ditadura dos Militares - No comando, o Engenheiro Militar General Park Chung Hee.

O General Park assume o poder através de um golpe militar e passa a governar o país com mão de ferro. Nada escapa ao seu controle, nem mesmo o Taekwondo (veremos isto em outra oportunidade).

A Ditadura Park, embora fortalecida pelo apoio norte americano e conseqüente pelo crescimento econômico, foi marcada por cruéis violações aos direitos humanos, pois tratou seus opositores da maneira mais brutal possível.

A campanha intensa e anticomunista de Park ganhou o apoio norte-americano imediatamente, em função do 10º artigo de sua Lei Anticomunista, oferecendo prêmios em dinheiro para aquele que matasse um Comunista ou o forçasse a ‘se matar’.

A tortura com água, na qual a pessoa era amarrada numa cadeira, tinha a boca amordaçada e através de um tubo introduzido pela narina recebia água gelada nos pulmões (não deixando sinais aparentes de tortura). Essa foi a marca registrada da polícia política de Park, segundo denúncias de presos políticos à Anistia Internacional.

A polícia política de Park era chamada de KCIA (K de Coréia em inglês) pela população. Tamanhas eram as influências e os investimentos norte-americanas durante a Ditadura Park e que eram de conhecimento de toda a população sul-coreana.

É dentro desse contexto político que o Taekwondo ganha força e se expande para o mundo. Pois, em função de diversos fatores, vários militares (formados em Taekwondo) após cumprirem seu tempo de serviço militar foram enviados para diferentes e distantes lugares do mundo. Sugere-se, inclusive, que alguns dentre esses, acabaram colaborando com regimes autoritários ou ditaduras nos países aonde chegaram.

A Ditadura Park, foi longe demais e como todo o tirano tem seu fim, com o General Park não foi diferente. Ele foi assassinado em 1979 por um agente do próprio serviço secreto coreano.

As manifestações populares e o Massacre de Kwangju

Após o assassinato de Park, aumentam as tensões sociais na Coréia do Sul e surge o nome de outro tirano para ‘dar conta do recado’. Articulado com os militares e com apoio americano, o Major General Chum Doo Hawn, antigo parceiro de Park e chefe da conhecida KCIA, assume o poder sob fortes protestos populares.

Com ele, a ditadura ficou mais forte e a convulsão social veio à tona em maio de 1980, quatro meses depois do golpe de Chun e de sua ascensão ao poder. Operários, ativistas, estudantes e políticos da oposição, em conflito com as duras regras militares, começaram uma série de manifestações em âmbito nacional exigindo eleições democráticas e o fim da lei marcial.

Nesse período, ao sul da península coreana, Kwangju, uma cidade que desde tempos antigos tinha sido o berço de grandes artistas, escritores e outros expoentes culturais, rebelou-se numa insurreição que durou aproximadamente dez dias, de 18 a 28 de maio de 1980. Aquele foi um momento marcante na história coreana e na busca da democracia naquele país.

Primeiro, os estudantes tomam a iniciativa sobre o movimento, depois boa parte da cidade de Kwangju, com cerca de 600.000 pessoas, na época, vão às ruas exigir democracia, eleições gerais e o fim da lei marcial imposta na ocasião pelo General Chun Du Hwan. Além disso, queriam a liberdade do preso político, condenado a morte, Kim Dae-Jung, mais tarde eleito presidente da Coréia do Sul e Prêmio Nobel da Paz em 1987.

Naquela ocasião, todas as reuniões com fins políticos estavam proibidas. E como represália, o exército sul coreano enviou sua tropa de elite para reprimir o levante popular, massacrando um número enorme de coreanos que reivindicavam democracia.

Para recuperar o controle da cidade, as Forças Especiais, sob o comando do General Chum, foi responsável pela maior barbárie contra cidadãos coreanos desde a Guerra da Coréia. Estima-se que podem ter morrido até 2 mil pessoas, entre os assassinados nos confrontos. Esse número não é preciso porque muitos corpos desapareceram, outros foram queimados e outros jogados ao mar.









General Chun Doo-hwan e Roh Tae-woo mais tarde levados ao banco dos réus para serem condenados por traição e responsabilidade pelo Massacre.



Carregando o estigma desta atrocidade, o General Chum governou ainda por quase oito anos, apesar dos protestos e críticas da comunidade internacional.

Os tempos mudam e as marcas permanecem

A tão sonhada democracia chega à Coréia em 1987, após uma nova onda de protestos que obrigaram Chun a convocar eleições diretas para a escolha de seu sucessor.

Embora as ditaduras coreanas ainda tivessem uma sobrevida, alguns historiadores afirmam que depois do Massacre de Kwagju a Coréia do Sul nunca mais foi a mesma. E as pessoas mortas naquele triste confronto têm sido reverenciadas como mártires da democracia coreana. Todos os anos, centenas de pessoas visitam o Cemitério 18 de Maio em Kwangju, para homenagear seus heróis. Provando para o mundo que não existem conquistas sem sacrifício, nem nação sem heróis.





Memorial dedicado as Mortos no Massacre





As dificuldades e a força do povo coreano nos revelam muito do espírito do Taekwondo e o exemplo dessas pessoas em Kwangju nos mostra e ajuda a entender que não se constrói a Paz sem disposição e que o equilíbrio social e a harmonia entre os homens podem ser encontrados na tolerância e na disposição para o sacrifício pelo bem comum.

José Afonso - F. Preta de Taekwondo
Mossoró - RN.