Taekwondo Brasileiro vai mal, e não é por acaso.

Artigo Publicado em 23/04/2012, as 23:00hs.

 

Tá legal
Tá legal, eu aceito o argumento...
Mas não me altere “as regras” tanto assim...

 

Por José Afonso*

 

A atual gestão que ocupa temporariamente o comando do taekwondo nacional parece ter perdido o rumo. Os erros e equívocos são tantos que não seria imprudente afirmar que estão abusando do “direito de errar”.

Há alguns dias, chamamos a atenção da comunidade taekwondista sobre a interferência de possíveis arranjos ou acordos políticos que estão interferindo e bagunçando o Sistema de Ranking Nacional, regulamento base que “ranqueia” os atletas de alto rendimento que almejam chegar a Seleção Brasileira em 2013.

E não é para menos, pois sabemos que para o sucesso de um atleta o planejamento é fundamental. E nas condições que a entidade nacional esta conduzindo o processo, o planejamento, a periodização, a preparação física, a seleção de eventos entre outros pontos não menos importantes acabam sendo comprometidos.

Erros acontecem. Mas tudo tem limites. Neste sentido esta gestão já esgotou sua cota.


Qual o nosso entendimento?

Nós do Tkdlivre, entendemos que a Entidade Nacional do Taekwondo Brasileiro não pode ser tratada como uma empresa privada. Nem deve ter “dono”, já que tem o dever de gerenciar interesses coletivos do taekwondo nacional. Além disso, a Confederação é filiada ao COB e responsável, constitucionalmente, pelo Desporto Nacional perante o Governo Brasileiro na “gestão” e no “fomento” do Taekwondo como Esporte Olímpico. É para isso que serve o investimento advindo da Verba da Lei Piva (Dinheiro Público) a esta modalidade. Assim sendo, nem precisamos dizer que isto, por si só, já requer transparência, responsabilidade e impessoalidade.

Quando questionamos a eficiência administrativa desta gestão, dizemos que a entidade que se mantém 100% funcionando com Recursos Públicos - ainda que tenha receita própria ou Verba Ordinária, provinda de anuidades de filiadas, registros e anuidades de faixas pretas, atletas, receitas de campeonatos entre outras -, além de não dar nenhuma “contra partida” à coletividade, ou seja, não tem responsabilidade de arcar com nada, também não se atenta para a onerosidade da entidade quando não cumpre seu papel com desenvoltura.

Desta forma, as verbas da Lei Piva, que financiam tudo, inclusive o funcionamento da Entidade, mais o “aporte” financeiro do Projeto Petrobras (que garante o funcionamento da Seleção Brasileira de Taekwondo, inclusive sua comissão técnica), acabam deixando a gestão solta e sem responsabilidade objetiva.

Como as federadas não se empenham em cobrar ações ou fiscalizar a gestão, tornando-se em boa parte cúmplices do desmantelo, o que se observa é o desperdício de recursos públicos que poderia ser mais bem aproveitado a favor do esporte nacional, inclusive do próprio taekwondo.


Qual a parte da entidade?

Uma das suas funções seria organizar e fomentar o Taekwondo dentro do Esquema Olímpico. E quando se fala em fomento, por falta de compromissos, políticas e ações práticas, o tema se torna evasivo e obsoleto. E se considerarmos que cada professor, técnico, treinador, atleta, clube ou academias tem de se virar com recursos próprios para atender as demandas esportivas do taekwondo nacional, ai então nem se fala. O que se poderia destacar como fomento no taekwondo brasileiro se, na prática, nada existe?

A aventura de participar da vida esportiva nacional, de fazer surgir, formar e preparar atletas de alto nível e levá-los aos eventos nacionais, torna a luta inglória, cara e desanimadora.

Enganou-se quem imaginou que a entidade iria dar um bom andamento na seara esportiva, ou pelo menos, nas competições de taekwondo.


E as regras?

Ano passado, sob “nova direção”, a “Nova CBTKD” criou algo inovador, o Sistema de Ranking Nacional, o SRN. Este sistema estabeleceria regras para duas situações importantes com os atletas devidamente “ranqueados”. Estaria assim, mais fácil de definir os cabeças de chaves para os campeonatos em curso e para escolher os dois atletas de melhor desempenho na temporada para tentar a sorte contra os atletas da Seleção para a formação de uma nova seleção no ano seguinte.

Em tese, tudo perfeito! Isto se nossos ilustres gestores entendessem que não é certo mexer na regra durante o campeonato.

Regras são acordos preestabelecidos para serem respeitados e cumpridos. Este aprendizado é fundamental para a vida social de qualquer individuo que quer viver harmoniosamente com os demais.

A “Nova CBTKD” não respeita regulamentos. Nem mesmo os que seus gestores criaram. Fora isso, seu Presidente provisório em exercício não tem o direito de se arrogar de um “estado de exceção”. Imagina o que o cidadão poderá fazer quando não for mais"provisório"?


As regras do jogo estariam sendo desrespeitadas?

E se não bastasse o disque-disque ainda não esclarecido de que o Open de Porto Alegre deste ano valerá 10 pontos no Ranking (evento “OPEN” que pode ter sido agraciado com está pontuação B3, antes da AGE de Prestação de Contas de 30/03/2012 - assunto este já tratado e sustentado no Artigo “Erro ou Jogada Política”), constatamos que o Open Cidade Maravilhosa também teve a mesma pontuação.

Está lá, bem posto: o evento do Rio agraciou o seu vencedor com 10 pontos. Este equívoco, erro proposital ou desrespeito a “ordem posta”, abre margem para o “Open” de Porto Alegre, efetivamente valer a mesma pontuação do Open do Rio, deixando desde já, criadas as condições para que o “Open do Madureira” tenha o mesmo peso.

Estas atitudes deixam todo o processo seletivo comprometido e contaminado. Será que a velha prática de “Aos amigos tudo; aos inimigos a Lei” estaria de volta?

Noutra perspectiva, o leitor mais atento poderá colocar sob suspeita a capacidade intelectual dos organizadores do Open Cidade Maravilhosa. Isso porque fazer um Open, até então do tipo B5, valendo 5 Pontos no Ranking Nacional, para depois de realizado, sem que ninguém tomasse conhecimento, passasse a valer 10 pontos, é no mínimo uma irresponsabilidade com os atletas e um equivoco mercadológico da organização do evento, já que, com o peso maior, modificado agora, o interesse ou o planejamento de cada atleta poderia ter sido outro. Consequentemente, o resultado financeiro deste evento teria sido mais animador aos seus organizadores.

 

Quem se responsabiliza?

Ao observarmos o o Calendário Nacional no Site oficial da Entidade iremos perceber que eventos “OPENS”, desde o início deste ano, estão definidos como peso B4, ou seja, 8 Pontos!

Como definido na apresentação do próprio Regulamento: “A Confederação Brasileira de Taekwondo, apresenta através este documento o Sistema Nacional de Ranking (SNR), que tem como base o Regulamento Ranking da WTF, que visa regulamentar um sistema de pontuação nacional necessário ao sistema classificatório para a formação da seleção brasileira...”. Tal Regulamento pode na sua proposta original estar em sintonia com o da WTF, mas as “maracutaias” perpetradas no seguimento do calendário, com certeza, não!!!

Assim como na Tabela de Pesos dos eventos Reconhecidos pelo SNR, nada consta quanto à mudança de valorização de pontos no regulamento. Fizeram um regulamento, definiram os “OPENS” como B5, e assim foi em 2011. Porém, em 2012, o Calendário de Eventos da Entidade, de forma disfarçada, já promove o Open Cidade Maravilhosa e o Open do Madureira para Opens, do tipo B4, e no decorrer do jogo, de acordo com a conveniência do atual gestor, já os promove a B3.

Com este nível de “seriedade”, dá pra levar esta gestão a sério?

Chama à atenção também a má vontade de valorizar os eventos que não tem ingerência e controle direto da entidade, o que sugere que o gestor provisório usa tais eventos para obter ganho político com cada um, já que eventos importantes como os Jogos Abertos de SP (evento que participa a Elite do Tkd Brasileiro); o Campeonato Brasileiro Universitário e os Jogos Escolares (que não dependem da entidade) são tratados de forma discriminada. Basta olhar o peso dos pontos de cada um deles: bem abaixo dos Opens susceptíveis à barganhagem política.

Quem acompanha o trabalho do Coordenador Técnico, responsável pela Área Técnica da Entidade, Sr. Jadir Fialho e seu assistente e aluno, Paulo Rocha, sabe que não seria do estilo destes dois gestores esta irresponsabilidade. Portanto, isso nos faz crer que tais decisões impensadas, atabalhoadas e inconsequentes possam mesmo vir de cima.

Para quem conhece a cultura política do taekwondo nacional, sabe que desta forma, tais modificações foi bom para alguns.


A quem, então?

Geralmente aos que tem por hábito fazer da barganha e da chantagem política uma eficiente arma contra gestores fracos e debilitados politicamente, frouxos de convicções e incapazes de fazer da autoridade que lhe foi dada uma fortaleza para o exercício do poder. Um poder a serviço do equilíbrio dos interesses do coletivo e principalmente dos interesses esportivos desta nação.


Há perspectivas?

O taekwondo brasileiro de Alto Rendimento já dá sinais de definhamento - não é de hoje -  e muitos continuam dando as costas para isto, se apoiando exclusivamente no trabalho de alguns abnegados.

Londres se aproxima, as olimpíadas do Rio também, e são nestas horas da verdade que os resultados são escancarados, sejam positivos ou negativos. Uns vão cobrar; outros vão ser cobrados. Só não vão culpar os atletas, por favor!!! Estes, geralmente são vítimas e acabam invariavelmente virando bodes expiatórios de gestores incompetentes e mal intencionados.

Alguma coisa precisa ser feita. E o mais sensato seria que nossos gestores tivessem um pouco de lucidez e recusassem estas sandices descontroladas.

Para onde querem levar o Taekwondo Brasileiro?

 

 

*O Autor José Afonso é faixa preta, professor, praticante de taekwondo e ativista no taekwondo brasileiro.

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