A Face dissimulada da “Oficialidade” do Taekwondo Nacional

 Artigo Publicado em 12/03/2015, as 23:30hs

 


 

Por José Afonso*

 

O Site Bang publicou, recentemente um esboço muito interessante e didático sobre a forma na qual se organiza “oficialmente” o taekwondo nacional, como sugere matéria em  03/03/15 – “Entendendo o sistema administrativo do taekwondo”.


Nós, do Tkdlivre, preferimos limitar este grupo que se infla de tal “oficialidade” como sendo os do Taekwondo “Olímpico” Brasileiro. E não por acaso,  embora não haja estatística confiável, a confederação e suas respectivas afiliadas (que se arrogam de tal atributo) podem nem abranger 10% de todo o coletivo taekwondista brasileiro.


Nesta toada, há de se atentar para quem efetivamente estaria associado, federado e confederado e em plenas condições deste exercício. Assim como as entidades estaduais (em sintonia com a legislação brasileira), as associações estaduais “federadas”, bem como, da mesma forma, seus respectivos praticantes devidamente “associados”. Quantos seriam? Façam as contas, leitor, por alto, e verão no que se resume este taekwondo dito oficial, excludente e um tanto negligente com os destinos do olimpismo brasileiro.

Assim, uma dúvida persiste. Afinal:


O que faz ou distingue este ou aquele praticante como “oficial”?
 

 

Podemos concordar que na cultura taekwondista brasileira, de modo geral, estar ou não filiado é uma linha tênue entre ser reconhecido taekwondista, por conta da subjetividade desta condição, alimentada e norteada por questões de conveniência política, arranjos e acordos. Se entendermos que efetivamente confederado  estão somente aqueles que tenham seus respectivos assentos em alguma das associações legalmente constituídas e devidamente federadas, ao pé da legislação, então, nestas circunstâncias, tal estimativa vão realmente demonstrar percentuais bem menos expressivos.

 

Além da tal “oficialidade”


E os demais praticantes, a esmagadora maioria?


Estes estão por ai, cada grupo a seu modo, tentando encontrar e fortalecer suas respectivas identidades, credibilidades, legitimidades, prazer e sentido.


A matéria em questão foi oportuna e teve boa repercussão nas redes sociais taekwondistas, muito bem sintetizada por um mestre e técnico de taekwondo gaúcho, quando assim se manifesta, pelo Facebook:

 

 Faz tempo que eu venho dizendo isso: oficial é diferente de legal.”

 

Chama a atenção a abordagem deste cidadão, logo do Rio Grande do Sul, um estado que já teve um taekwondo competitivo muito respeitado por conta de dias de glórias vividos num passado um tanto distante. Esta época nos remete a duas figuras que expressam bem as discrepâncias e injustiças intrínsecas neste conflito de interesses que opõe Legalidade vs Oficialidade:


 In Kyu Lee & Alexandre Gomes. 

Os dois, grandes nomes do taekwondo gaúcho e nacional, ex-atletas e mestres da modalidade; ambos de lastro e qualidade marcial e esportiva inquestionáveis, formados em Educação Física e profissionais atuantes na Academia Lee em Porto Alegre. Duas lideranças regionais que, além de formarem praticantes da mais alta qualidade para o taekwondo brasileiro, formam também atletas. É o caso de Carlos Izidoro & Débora Nunes, os dois nomes mais expressivos que surgiram no Rio Grande depois da safra a qual pertenceram.


O que mais esperar de tais figuras?


Mas, afinal:


Que razões levam tais profissionais, com tamanha qualidade, robustez e envergadura, estarem fora da tal “oficialidade”?


A resposta pode ser simples, e não muito diferente do que se percebe em outros estados; há elementos desagregadores na política e no comando da modalidade que são excludentes por natureza.


Nesta toada, não são poucos os ex-formadores de atletas, os quais agora dedicam seu tempo ao taekwondo sem perspectivas ou ilusões competitivas, sem falar da grande massa de mestres e professores que estão migrando para o Muay Thai, por exemplo.


Quem vive e conhece o Taekwondo “Oficial” Brasileiro sabe que nestes últimos anos a modalidade onde não se apequenou, dispersou.

E não são poucos os fatores que contribuem para uma reflexão cada vez mais oportuna e não menos preocupante, dentre estas, o Modus Operandis da cartolagem “oficial” do Taekwondo Brasileiro. Ponto este que merece atenção, visto que, pode residir ai um dos nossos maiores gargalos.

 

Entendendo o sistema administrativo do taekwondo” ... de outro ângulo.

 

Como se sabe, cargo de dirigente não é remunerado. No entanto, em grande parte, depois de eleito, tirar o cidadão do posto não é tarefa fácil. Por ai já começa o drama, onde se percebe uma ciranda autoprotetora entre os dirigentes das entidades que compõe o tal “sistema oficial”. Donde um preserva o outro em um coletivo de representantes estaduais “confederadas”, que em vez de fiscalizar (em razão de atribuição básica estatutária), demonstram uma prática de autopreservação, muito em função das benesses auferidas através do dinheiro público que escorre em favor de quem baixa a cabeça e não questiona. Quem assim age, mantém-se em Zona de Conforto Política inabalável.


Obviamente que para fazer parte desta política, é preciso pagar um preço. E tudo indica que a moeda de troca seja a Reserva no Mercado dos Exames de Faixas dentro dos Estados. Por dentro deles a entidade-mor (vestida de dobok dourado) recebe a contrapartida da gentileza política evidenciada.

 

Exames de Faixa


Entre tantos fatores, este parece ser o caso mais emblemático; o que permite discrepâncias absurdas, quando um cartola regional, sem nunca ter passado á frente daquele aluno, se acha no direito de examiná-lo. E desse modo, recebendo pagamento de tais exames, cujos valores (particularmente e historicamente no Taekwondo) vêm tabelado em salários mínimos. É a fórmula fora da lei de dar receita certa ao Coletivo de Mestres Examinadores, invariavelmente afinados com o poder político em curso.


Não surpreenderia, também, no âmbito regional, a reprodução da mesma prática em troca do mesmo benefício: A Zona de Conforto de quem comanda as federações estaduais alinhadas ao sistema dito oficial formando um verdadeiro Ciclo Vicioso de auto-sustentação política.


O que deriva daí, outra discrepância não menos grave: A cartolagem estadual, na figura de um dirigente ou de parceiros de poder, avançando nas graduações “oficialmente aceitas”, no intuito de manter seguro o reservado e inquestionável mercado de exames, assim como os privilégios advindos do poder central.

 

Virou um negócio. Da china? Não!

Da Coréia “do Sul”, mesmo.

Vícios Históricos


Culpar ou acusar alguém em específico seria inoportuno, visto que estes vícios e esta cultura têm raízes históricas que parecem estar impregnadas no “DNA Taekwondista”. Porém, não podemos aceitar que esta promiscuidade no exercício do poder - que persiste ao longo dos anos em detrimento do professor de taekwondo (aquele que efetivamente fomenta a modalidade ao captar e introduzir novos entrantes na modalidade) -, se institucionalize “oficialmente”.  Esta injustiça precisa ser revista de modo a não comprometer a sustentabilidade marcial e esportiva ou o futuro do Taekwondo Brasileiro.


E notem que deixaremos de lado outro gargalo não menos incômodo que é o do financiamento público da modalidade. Ou seja, os Recursos Públicos destinados exclusivamente àqueles que compactuam ou se beneficiam desta tal OFICIALIDADE.


E também o do enorme grupo de novos praticantes Fomentados e Bancados pelo Projeto Mais Educação do MEC/Governo Federal, os quais também, em muitos casos, se veem envolvidos neste “angu de caroço” e, da mesma forma, submetidos a tais condições de acesso.


Afinal, o que está em jogo é o tal Sonho Olímpico, uma miragem, donde ninguém pode ousar “sonhar” se não pela tal da via  “oficial”.


Porém, estes são temas pra outras resenhas...


Que nossos esforços contribuam para um Taekwondo mais Justo e uma Convivência Coletiva mais Harmoniosa. 

 

*O Autor José Afonso é faixa preta, professor, praticante de taekwondo e ativista no taekwondo brasileiro.

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