Equívocos no Exercício do Poder

 Artigo Publicado em 06/01/2014, as 12:30hs

Uma reflexão sobre o Exercício do Poder

 ... A desconexão entre os interesses dirigentes e os do seu respectivo coletivo;
 ... As consequentes e inevitáveis reações;
 ... Indignações, revoltas e mecanismos do contra poder;

 Estes pontos abrem espaço para:

   ... Articular Mentes;
   ... Criar Significados;
   ... Contestar o Poder.

 

 

Por: José Afonso*

O Exercício do Poder, seja na seara governamental ou nas instituições civis, tem sido tema de estudos, pesquisas e questionamentos. O tema é por demais complexo, amplo e variado, porém não menos instigante. Nem são poucos os autores que deram contribuição espetacular para esta área que vai do exercício da política à convivência humana.

Há algum tempo, circulou um prospecto dos cursos da Revista HSM Management a qual trazia uma frase de Peter Drucker onde dizia: “toda a organização é política e uma das suas funções é organizar o poder”.

O que o autor queria dizer sobre “...organizar o poder”?

Ao mirarmos as organizações públicas (Instituições Governamentais) ou organizações civis de interesse coletivo (Associações, Federações, Confederações, entre outras), “organizar o poder” nos faz refletir sobre a gestão das demandas coletivas, ou quem sabe, a busca do equilíbrio dos interesses coletivos e até dos diferentes interesses dentre o coletivo.

A cada movimento social, em cada conflito social, o equilíbrio ou o desequilíbrio na gestão destes diferentes interesses se faz presente. Inclusive, na raiz da maioria dos conflitos. Nem todos os governantes, políticos, dirigentes e cartolas esportivos consideram esta perspectiva.

Não surpreende o fato do poder ser exercido, invariavelmente, a partir do interesse ou perspectiva de quem o exerce ou mesmo de um pequeno grupo que o cerca e deste se apossa.

O filósofo Mário Sérgio Cortella traz uma abordagem interessante e propõe o Exercício do Poder com a vocação para servir, que consiste em coloca-lo a serviço de seu coletivo e não o contrário, pois para este autor “um poder que se serve, em vez de servir, é um poder que não serve”. (CORTELLA, 2007 p.138)

O Exercício do Poder a serviço do seu coletivo é o que melhor se aproximaria de um modelo de liderança altruísta, de modo que a perspectiva foque no outro o seu propósito. É o exercício da empatia levado a cabo.

A Constituição Brasileira traz no Art. 1º, Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição. Seria perfeito! Porém, os mecanismos de representatividade acabam, geralmente,  esquecendo do povo, do coletivo, priorizando “outros” interesses.

As instituições civis de representação coletiva, geralmente, não fogem à regra. E isto se processa quando dirigentes se apresentam com discursos compromissados, democráticos e conectados às demandas do coletivo, porém, tão logo eleitos, mudam suas perspectivas e discursos e mostram efetivamente a que vieram.

Entre tantos teóricos que refletiram sobre este tema, um em especial não pode ficar de fora de qualquer análise: O pensamento de Michel Foucault. Para ele,

Se tentarmos construir uma teoria de poder, será necessário sempre descrevê-lo como algo que emerge num lugar e num tempo dados, e dai deduzir e reconstruir a gênese. Mas se o poder é, na realidade, um conjunto de relações abertas, mais ou menos coordenadas (e, de fato mal coordenadas), então o único problema consiste em se munir de uma rede de análise que torne possível uma analítica das relações de poder.” (RABINOW e DREYFUS, 1995, P.202)

Com isto o pensamento de Foucault abre a perspectiva da análise determinando o não reducionismo do tema, visto que:

O Poder não está restrito às instituições políticas. O poder representa um ‘papel diretamente produtivo’, ‘ele vem de baixo’, é multidirecional, funcionando de cima para baixo e de baixo para cima.” (RABINOW e DREYFUS, 1995, P.203)

Desta forma, se faz necessário um entendimento mais amplo do tema, já que o Exercício do Poder se apresenta em várias roupagens, ora como ferramenta reguladora visando o equilíbrio coletivo, ora como ferramenta de sobreposição de interesses. Porém, para o caso sobredito, invariavelmente, com a permissividade de outra parte, por vezes, o próprio coletivo.

Egoísmo, arrogância, vaidade e interesses de toda ordem...

Os modelos sociais nos quais estamos inseridos tem dado espaço a estilos de liderança com fortes componentes de egoísmo, arrogância e vaidade. Sendo que destes estilos ou traços de comportamentos, derivam interesses de toda ordem.

Como lembra Clóvis de Barros Filho, falando sobre  valor e amor no pensamento de Jesus Cristo; quando lembra Tulcídites, Historiador Grego, testemunha e participante da Guerra do Peloponeso (Sec IV, a.c) ao registrar que “por ande ando, o que mais vejo são vidas querendo reafirmar sua potência.” Assim, fica mais fácil entender uma das perspectivas humanas no Exercício do Poder, quando os interesses coletivos dão lugar ao interesse pessoal ou de grupos que, ao “reafirmar sua potência”, ocupam o poder de forma autoritária, desconexa aos interesses coletivos.

Esta cultura, que se revela uma prática distante da virtuosidade, parece virar regra em nossa conjuntura atual, de modo que grandes escândalos, desvios de conduta ou de caráter, acabam justificando casos menores. E desta forma, o que é imoral, errado ou ilegal, vai estrategicamente ou propositalmente se banalizando.

Noutra perspectiva, a psicológica, Gikovate (2009) em Palestra proferida sobre o “Amadurecimento Emocional”, faz uma reflexão sobre o conflito entre dois modelos de comportamentos: Egoístas X Generosos, nos propondo que, em geral, nos relacionamentos humanos nos deparamos com este impasse, onde, de um lado, o modelo egoísta se beneficia mais do que o outro, o generoso que é o que cede, o que doa, o que fica no prejuízo.

E como esta relação é desequilibrada, ela não se harmoniza. E quem sabe, resida aí uma explicação para tantos conflitos. Gikovate propõe ainda que ambos os modelos (Egoístas e Generosos) devam evoluir para um modelo comportamental mais Justo, o do equilíbrio, o Bom Senso.

E na busca de um modelo de relacionamento mais justo, mais equilibrado, equânime, matematicamente mais ajustado para ambos os lados, tem-se a Justiça como instância de poder: uma ferramenta, ou recurso, mediadora do desequilíbrio.

Gestores Egoístas, Coletivos Generosos

Quando a subserviência, a apatia e o medo - e até a Justiça - , ficam a serviço de modelos de poder equivocados.

O grande dilema desta reflexão ou constatação é saber se:

  • Estariam nossos dirigentes sendo egoístas em demasia?
  • A balança estaria desequilibrada?


E se assim fosse:

  • O Coletivo tem sido generoso além da conta?
  • Indiferente, apático, ou condescendente?


Isto pode ocorrer, entre outros fatores, por medo de que o cidadão comum, desprovido de recursos ou de entendimento dos seus direitos básicos, têm das poderosas garras do poder ou de quem as exerce. Doutra sorte, por descrença nas instituições e até por ignorância ou alienação política.

Indignações, esperança e mecanismos de contra poder

Uma hora o copo transborda...

Há pouco mais de ½ ano das manifestações de Junho/2013 que agitaram o país, boa parte dos nossos dirigentes parecem não refletir ou entender como ocorre o processo da indignação coletiva. Dirigentes e instituições, numa perspectiva equivocada de Exercício do Poder, parecem se perder ao tentar descobrir qual a gota que faz transbordar o copo, ou seja, quais razões e qual o momento para o coletivo dizer basta e ir à fúria. Geralmente subestimam a paciência coletiva sem se darem conta de que a indignação também tem limite, manifestando-se de diferentes formas.

O Escritor Manuel Castells nos dá uma pista sobre este processo quando diz:

“...a confiança é o que aglutina a sociedade, o mercado e as instituições. Sem confiança nada funciona. Sem confiança o contrato social se dissolve, e as pessoas desaparecem, ao se transformarem em indivíduos defensivos lutando pela sobrevivência.” (CASTELLS , 2013, p.7)

A cultura dirigente, principalmente a esportiva, conta com a morosidade da justiça brasileira entre outras possibilidades, para testar a capacidade de tolerância e complacência de seus respectivos coletivos. Até que indivíduos percebam a força do coletivo e se postam a encontrar mecanismos de resgate da dignidade social e participação política em entidades que, inclusive, são bancadas por recursos públicos. Em especial, as entidades de gerenciamento das modalidades olímpicas, fortemente fomentadas por conta dos Jogos Olímpicos de 2016 que ocorrerá no país.

Não por acaso, as manifestações populares de meados de 2013 já deixaram um alerta.

O desafio está posto, como sugere Castells (2013): articular mentes, criar significados, contestar o poder, são ações que definem pautas para a mídia crítica, formadores de opinião, militantes e ativistas políticos.

Imaginar que, independentemente dos grupos que disputam o poder, não surja, no calor dos embates, na necessidade da sobrevivência ou no exercício da cidadania, mecanismos de contrapoder é não entender em nada da natureza humana.

O desafio está posto!

Quem viver verá!

*O Autor José Afonso é faixa preta, professor, praticante de taekwondo e ativista no taekwondo brasileiro.


Fontes:

CASTELLS, Manoel, Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet, Manoel Castells; tradução Carlos Alberto Medeiros - 1.ed - Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

CORTELLA, Mario Sérgio, Qual é a tua obra? : inquietações prepositivas sobre a gestão, liderança e ética / Mario Sérgio Cortella. - Petrópolis: Vozes, 2007.

FILHO, Clóvis de Barros, O Valor e Amor no pensamento de Jesus Cristo - Disponível em  <http://www.youtube.com/watch?v=-dA8zo_dcD0> Acesso em 10/12/2013

GIKOVATE, Flávio, Inteligência Emocional (Parte 1 - 7), 2009 - Disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=U_eMfVnIXfY> Acesso em 10/12/2013

MARICATO, Ermínia ...et al. Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil / Hermínia Maricato ...et al - São Paulo: Boitempo : Carta Maior, 2013.

RABINOW, Paul, DREYFUS, Hubert, Michel Foucault, uma trajetória filosófica: (para além do estruturalismo e da hermenêutica) / Paul Rabinow, Hubert Dreyfus; tradução de Vera Porto Carrero – Rio de Janeiro: Forense Universitário, 1995.

 

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