Mundial de Taekwondo e as lições que podem servir

Publicado em 26/07/2013, as 12:00hs


...A lição nos sabemos de cor, só nos resta aprender...
(Beto Guedes & Ronaldo Bastos)


Por
José Afonso*

Delegação Brasileira da modalidade retorna do México, possivelmente com poucas convicções e muitas incertezas. Quais as lições deste mundial que cada atleta traz na bagagem? Isto só o tempo dará elementos para que cada um tenha uma ideia mais calibrada desta experiência.

Porém, o fato é que temos menos de três anos para as Olimpíadas no Brasil. Um tempo extremamente curto para vislumbrarmos um conjunto de atletas em condições reais de medalhas a exceção, talvez, de Guilherme Dias que, com um biotipo mais adequado ao momento da modalidade, parece estar num estágio mais avançado.

Mas não cabe aos atletas esta incumbência. A eles cabe se prepararem.

A responsabilidade é da Gestão que, de posse do poder institucional e dos recursos públicos destinados à modalidade, tem a tarefa de trabalhar o coletivo dos atletas que já existem, para que tenhamos um grupo do qual se possa escolher ou selecionar os 4 representantes da modalidade em condições de fazer frente aos adversários de países favoritos e lutar por ao menos uma medalha; não há como se vislumbrar mais que isso.

E é sobre esta tarefa que demonstramos preocupação.

Há de se considerar que a política em curso na modalidade tem impactado em demasia a seara esportiva, em especial a vida dos atletas. Entre tantas hipóteses, há de se considerar o fato de o atual gestor ter chegado ao poder de forma ainda muito questionada e criticada. Da mesma forma, temos testemunhado sua reação às críticas de lideranças ou federações que se opuseram ao seu projeto de poder, o que tem colocado a vida institucional, política e esportiva da modalidade em colapso.

Até o Ranking Nacional do Taekwondo, única porta para que os melhores atletas concorram vaga na Seleção Brasileira, vem sendo alvo de questionamentos judiciais. E isto gera insegurança e incertezas entre os atletas.

Acredita-se, inclusive, que o critério e a escolha para os eventos selecionados para valerem pontos neste Ranking só o são por interesse ou barganha política. O Caso do Brazil Games/SP, em pleno imbróglio judicial, serve como indício desta possibilidade, retirado ano passado do calendário de evento da confederação, retirado do sistema de ranking, mesmo que com uma decisão judicial contrária a sua exclusão.

É possível que os erros ou equívocos da política esportiva imposta à modalidade tenham inúmeros aspectos a serem observados ou apontados. Cada um com seu maior ou menor impacto e relevância.

No leque de possibilidades, o Comando Técnico da Modalidade, no aspecto esportivo, assume destaque, visto que, até agora, embora previsto estatutariamente, o Cargo de Diretor Técnico, função chave na implantação das políticas e ações no âmbito esportivo do taekwondo, não tem titular. Quem exerce esta função é o próprio Coordenador da Seleção Brasileira, remunerado pelo Projeto Petrobras/IPM para o Taekwondo.

Quem define ou se responsabiliza pelas políticas esportivas aplicadas ao Taekwondo Esportivo Brasileiro?

Eis uma boa interrogação!

Sabe-se que esta gestão sofre um centralismo exagerado quando se percebe que nada acontece sem o “aval” do Dirigente que comanda a Entidade. E como esta gestão trabalha na corda bamba, para se segurar política e judicialmente, deduz-se que as decisões serão sempre para atender estas demandas, em forma de troca de apoio político ou mesmo de uma aparente “zona de conforto”.

Uma boa tese para sustentar o exposto está no histórico do atual dirigente. Quando ele galgava o poder tentando afastar o ex-presidente JRKim, argumentava que só iriam se manter frente à Comissão Técnica, profissionais que apresentassem produtividade, ou seja, resultados. E isto nunca aconteceu, pelo contrário, ele sustenta um técnico que nunca justificou (com resultados) sua permanecia frente à Seleção Nacional, a não ser pelo poder de voto que tem este dirigente ao acumular também a função de Dirigente de uma Federação Estadual, algo raro no esporte brasileiro onde não é comum vermos cartolas ocupando cargos de técnico de seleção.

Ranking Nacional sub utilizado

 

Nunca faltaram críticas ao modelo que escolhe uma Seleção para um ano inteiro. Ao considerarmos que não há demandas que justifique sustentar este grupo fechado por 12 meses, ainda blindam os atletas escolhidos para, em forma de privilégio, esperarem os demais atletas do País correrem atrás de resultados pelo mesmo período, para tentarem a sorte, em seletiva única em final de ano, de modo a destronar estes atletas de sua posição. Ainda que isto gere muita discussão, não há como sustentar outro grupo, o dos Reservas, nas mesmas condições de privilégio. E a curiosidade, neste contexto, é que este ano alguns renomados atletas (titulares desde a implantação da Lei Piva) hoje estão na reserva e perderam a condição a remuneração advinda da Petrobrás.

Da mesma forma, não se justifica três técnicos remunerados o ano inteiro para as escassas demandas, já que o Taekwondo é um esporte individual onde os atletas treinam com seus técnicos e respectivas equipes de origem.

E se o Ranking Nacional é o reflexo dos melhores atletas em atividade no País em qualquer momento do ano esportivo, não teríamos no Líder do Ranking um reserva natural se as circunstancias assim exigirem? Não! Os Reservas (apesar de não mais remunerados com o dinheiro público) formam outro grupo de “blindados” que, em nome da Seleção Brasileira, produzem menos ainda que os Titulares.

Notem que isto em nada deveria impactar a política de fomento, incentivo ou ajuda de custo aos nossos atletas que vivem em constante preparação e necessitam de recursos financeiros. Inclusive devido ao fato de que, se os nossos atletas tivessem mais autonomia, inclusive financeira, para viajar e frequentar os Open's Internacionais ranqueados pela WTF, nossa realidade poderia ser outra.

Fomento à modalidade

A entidade recebe da Lei Piva, via COB, 1,5 milhões de Reais anuais para gerir a modalidade. Ainda que o item Transparência de Informação nos gastos com Dinheiro Público não seja muito apreciado por esta Gestão, estima-se que algo em torno da metade deste montante é gasto na máquina institucional. E o que sobra, além de consultorias questionáveis e assessorias jurídicas para, em tese, sustentar as aventuras políticas do atual presidente da entidade; o que sobra deste montante é gasto em ações supostamente questionáveis e em eventos com cara de atividade política visando a manutenção deste projeto de poder que se apossou do controle da modalidade.

Deixamos de lado, até por falta de definição, o aporte da Petrobras/IPM que sustenta a comissão técnica e parte dos atletas Titulares da Seleção.

Assistimos contradições absurdas, onde os poucos CTs de Taekwondo (que sobrevivem neste País) se mantêm às próprias custas de onde saem os melhores atletas do País. Na contra mão disto, a entidade repassa às Federações Estaduais, equipamentos de ponta, financiado pelo Governo Federal. Para quê, se não é papel destas entidades preparar  atletas?

Há casos de Federações que receberam tais equipamentos e que nunca tiveram a menor vocação ou jeito para a preparação de atletas de Alto Rendimento.

Querem enganar quem com estas ações ou ideias? É a barganha política emprestando, com recursos públicos, uma relevância ou premiando a ineficiência presente em grande parte das federações de taekwondo deste País.

Estes pontos, entre outros tantos, deveriam ser pauta constante de debates, para a reavaliação do taekwondo brasileiro e as razões que nos fazem tão pobres ou carente de resultados.

Eis uma boa reflexão:

É comum no Brasil criticarmos a miséria política, social e econômica que vive Cuba. Mesmo assim, com uma população que não chega a 10% da nossa, os cubanos  conseguem formar um grupo de taekwondista com melhor desempenho que o nosso.

É algo a se refletir.

 

*O Autor José Afonso é faixa preta, professor, praticante de taekwondo e ativista no taekwondo brasileiro.


Nota da Redação:

 

 

 

 

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