CBTKD segue WTF e obriga os taekwondista a fazerem registro internacional

Artigo Publicado em 19/09/2012, as 23:00hs.

Sistema WTF GMS -

“A partir do dia 1 de janeiro de 2013, será necessário o cadastro no Sistema WTF GMS para participar de todo e qualquer evento promovido e chancelado pela WTF nas categorias Poomsae e Kyorugi, Júnior e Adulto.” Na mesma nota a CBTKD informa que “No Brasil também será obrigatória a apresentação da carteira para todos os eventos promovidos ou chancelados pela Confederação Brasileira de Taekwondo.” (Site da CBTKD)

 

Por José Afonso*

Quem assina a nota acima é a Diretoria de Assuntos e Relações Internacionais da CBTKD, um departamento que parece não existir já que nem no mapa da diretoria, muito menos no estatuto da entidade indique alguma coisa, tampouco uma notinha sobre sua criação ou nomeação de um responsável.

O fato é que esta determinação da Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTKD) tem grandes implicações na vida do taekwondista nacional e requer uma cuidadosa análise e reflexão.

O Projeto GSM da WTF é moderno, arrojado e inovador, mas também mercantilista, uma tendência do Taekwondo WTF ultimamente. E sua implementação deve levar em conta a realidade e cultura taekwondista de cada país. Portanto, sua implantação no Brasil demanda tempo.

Outro aspecto a ser considerado é a forma como a modalidade está estruturada em cada país membro da WTF. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde já estão familiarizados com o sistema, além de ser um país mais desenvolvido tecnologicamente, lá não se carrega alguns vícios como o “controladíssimo” Mercado de Exames de Faixas Brasileiro. Enquanto lá os mestres têm autonomia para cuidar dos Exames de Faixas em suas respectivas academias, aqui, o controle é centralizado pelo dirigente da federada estadual. Desta forma, nada acontece sem o aval destas figuras, peças-chaves no controle político da modalidade em nosso País.

Por aqui, Exame de Faixa, tem servido como uma contrapartida que a entidade nacional dá às federadas estaduais, em troca de apoio político, procurações etc.

Como o esquema administrativo do taekwondo brasileiro é altamente centralizador e autoritário, não é difícil entender as razões de cada entidade estadual em ter em seus quadros sociais poucas entidades federadas, comparado ao contingente de clubes e associações que atuam no taekwondo brasileiro.

Nesta realidade, onde um dirigente nacional altera o Estatuto Social da Entidade Nacional com o propósito de favorecer lhe unicamente, de modo a inviabilizar qualquer outra candidatura ou projeto político alternativo, imagina-se que em 2013, só quem estiver “devidamente associado” a uma associação ou clube legalmente constituído e “devidamente federado” a uma entidade estadual (a qual historicamente não é propensa a democratizar suas instancias de participação e controle) é que estará em condições de reivindicar seu WTF GMS e ser atleta de taekwondo, mesmo que sem pretensões internacionais.

Se o coletivo taekwondista efetivamente associado, federado, confederado e legalizado (como muitos apregoam) à entidade “oficial” de controle da modalidade olímpica no Brasil está cada vez mais reduzido por conta das imposições, exigências e interesses político-administrativo dos seus dirigentes, como esperar uma adesão significativa que venha justificar alguma relevância do taekwondo brasileiro nos cofres da WTF?

Será que comunicaram ao Governo Federal (maior patrocinador da modalidade até 2016) o que pretendem com esta aventura?

E o espírito olímpico, já que estas amarras impedem cada vez mais o acesso à modalidade?

As contradições não param por ai.

Neste último Campeonato Brasileiro de Taekwondo, principal evento da modalidade no país, mais da metade dos possíveis participantes não compareceram ao evento. Qual será o impacto desta imposição no próximo ano?

Em texto explicativo, a CBTKD é taxativa: “Quero me registrar na WTF, porém sou 4º DAN no Brasil (CBTKD) e 1º DAN no Kukkiwon. Qual a graduação que me registro no WTF GMS? Você deverá informar a sua graduação mais alta. No seu caso você será registrado na WTF como 4º DAN, independentemente da sua graduação no Kukkiwon.” (Site CBTKD, em 17/8/2012)

Neste caso, qual a razão de todo o glamour com a vinda da Kukkiwon ao Brasil, já que foi um fato político amplamente comemorado por conta do nivelamento das Graduações dos mestres brasileiros? Já perdeu o sentido e a sua importância? Era engodo, jogada política, marketing ou algo do gênero?

Saída de Divisas

Baseando-se nesta informação: “Qual o valor para o registro na WTF? O valor para o registro é R$ 120,00 anual, tanto para faixa colorida como para faixa preta.” (Site CBTKD, em 17/8/2012)

Mesmo que a questão da saída de divisas do país ocorra inevitavelmente, por conta da CBTKD submeter seus praticantes a este gerenciamento internacional, é de se supor que tal decisão merecesse alguns estudos para viabilidade prática desta aventura gerencial.

Da mesma forma, chama atenção o fato de uma entidade de nível nacional, beneficiária e dependente de recursos públicos, ser tão simplória e incompetente em premissas básicas. Por exemplo:

  • Não há registro de pesquisas, estatísticas ou números que indique qual o contingente brasileiro de praticantes da modalidade, muito menos de quantos efetivamente estão vinculados ao manto “legal” da CBTKD, controladora da modalidade do taekwondo brasileiro como esporte olímpico;
  • Não há indicativos, portanto, nem se sabe o número de atletas que frequentam as competições consideradas “oficiais” ou mais importantes em todo o país. Supõe-se que não ultrapassem mil atletas;
  • Sabe-se que boa parte deste número é de atletas que se aventuram nas competições de forma irregular. Entre estes, alguns que tentam alcançar colocações para ganhar uma Bolsa Atleta, sem grandes pretensões esportivas, muito menos carreira internacional;
  • O número de atletas realmente competitivos, com potencial para se aventurar no exterior, pode nem chegar a 100. O número é pequeno. Ainda assim, não há critérios para que possamos achar um número mais apropriado, muito menos há discussão sobre este assunto.
  • Não há estudo de rotatividade dos faixas coloridas nas academias. Portanto, não faz sentido impor um montante de R$ 120,00 em registro internacional para um praticante que pode abandonar a modalidade a qualquer momento.
  • No taekwondo brasileiro, entre seus praticantes, sabe-se quantos pagam as mensalidades regularmente?
  • Quantos pagam a anuidade da Federação Estadual regularmente?
  • Quantos Faixas pretas pagam a anuidade da Confederação regularmente?

Considerando estes pontos, com que propriedade a entidade, de forma atabalhoada, quer impor este registro internacional ao coletivo taekwondista do País? Seria por incompetência gerencial, de modo a ser mais fácil empurrar esta tarefa para a entidade internacional, mesmo a um custo significante em troca de um registro internacional que pouco vai servir para a grande maioria dos seus praticantes?

Qual o impacto desta imposição à modalidade no Brasil?

Entende-se que um esporte que se “dá ao luxo” de impor um registro internacional anual de R$ 120,00 aos seus praticantes, nem deveria precisar de recursos públicos para gerir suas demandas.

Então, qual propósito desta aventura gerencial? Seria para melhorar o prestígio desta gestão no cenário taekwondista internacional?

Ou quem sabe seria para dar credibilidade e prestigio internacional ao responsável pela Diretoria de Assuntos e Relações Internacionais da CBTKD, a qual ninguém sabe que existe, já que até agora nada consta a respeito desta diretoria, muito menos sobre o seu titular?

Seria, esta aventura, mais um “tiro no pé” da atual gestão que tem agido de forma precipitada e atabalhoada quando se trata de temas da mais alta relevância para o taekwondo deste País?

Não custa nada uma reflexão sobre o assunto...

Recolher dados, analisá-los, estudá-los, refletir sobre os problemas e gargalos que afligem o taekwondo nacional, assim como um exaustivo debate aberto e franco com o coletivo taekwondista, por acaso denigriria a imagem da Entidade Nacional que controla o Taekwondo Olímpico Brasileiro?

E os representantes estaduais, membros do colégio eleitoral, das AGE’s e AGO’s, legítimos fiscalizadores da Gestão Nacional estariam em movimento em defesa dos interesses do taekwondo brasileiro? Ou, extasiados com os afagos e distribuição de Kits, bancados pelo Governo Federal, ficaram inertes e indiferentes as suas atribuições estatutárias?

Imagina-se que cada um deveria fazer a sua parte, da mesma forma que faz a mídia crítica, como o Tkdlivre, por exemplo.

 

*O Autor José Afonso é faixa preta, professor, praticante de taekwondo e ativista no taekwondo brasileiro.

 

Para entender melhor sobre o Tema, acesse:

De ... 17/9/2012: WTF GMS obrigatório para eventos oficiais;
De ... 23/8/2012 - GMS: Manual de orientação para envio de documentos;
De ... 17/8/2012 - WTF GMS chegou ao Brasil! Conheça o sistema e registre-se!;
De ... 17/8/2012 - Assista o vídeo explicativo - WTF GMS Video em Portuguese.

 

Nota da Redação:
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